Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos e contribuições municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo o caso em musica e em dansa de roda!
Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos periodos ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques, simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o proprio soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus actos mais intimos, da propria solução de seus amores. Hoje levas pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no presente seculo sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa, todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra!
Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á primeira!
Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora, cidade de marmore e de lixo, que os teus remendões morreram!
Aquelles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos, que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correccional, mas tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses taes, que eram a arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e terrivel, esses desappareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te philarmonica. Substituiste a força da união pela União e Capricho. Quando te não chegam ao pello tocas o hymno. A phrase levar para o tabaco ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula—levar para a musica.
Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o costume, despicaste-te com uma polka especial.
As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões. Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabeça com a semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua polka brilhante, As cutiladas do Passeio Publico!
O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na proxima tosa que te appliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a vingança monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da tyrannia a vindicta dos povos.
Emquanto á dignidade humana ... lalarilolé ... e emquanto á liberdade, ao direito e á civilisação ... lariléliló ... que nos importa isso?... Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiaes o que nós queremos é panno adesivado ...lólaró ... e fios ... trolarilolé!
Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o sol ... e dó!