E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responderá erguendo os olhos ao céu.
—Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada.
E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares deslisando em gyros ondulantes sobre os parquets polidos, cingindo com o braço direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados, e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E conversaremos:
—Como a religião é boa! como é ineffavel!... Eu sinto a voz do meu coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma!
—E começa a ter crenças?
—Oh! sim!... com impaciência! com frenesi! com delirio!... Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!... Tu, minha candida pomba da arca!... Tu, minha estrella dos Magos!... Tu, meu anjo da guarda!...
—Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo Pontifice, não acredita?
—Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu coração bate?... É pelos dogmas, é pelos concilios, que elle assim bate! Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes ...
—Oh! se é um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que nos seguem ... Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa!
—Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Elle bebe-a ao almoço ...