A inundação dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos collegios de Lisboa.
A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas as idéas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás réclames das suas distribuições de premios.
Este anno a menina Fernandes foi approvada em instrucção primaria. Para o anno proximo será approvada em francez. D'aqui a tres annos obterá egual exito com relação á lingua ingleza.
O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e recobrará completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita professora dá-a por prompta para entrar na sociedade mais escolhida. Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr.ª D. Jeronyma, as prendas de mãos proprias do seu sexo. Estas prendas consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga, com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de bastardinho, egualmente a canotilho de ouro:
Elvira Fernandez me fecit.
Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das quaes aprendeu precisamente o indispensavel para escapar, caindo-lhe um thema facil e um examinador carinhoso, como muito bem dizia Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os conhecimentos theoricos da formação das palavras.
Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a Prière d'une vierge ou Les cloches du village, e de continuar a bordar em seda ou em casimira os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das poltronas.
Polycarpo reconhecerá então—demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai d'elle!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»—que D. Elvira possue, no estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a sua difficil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como esposa, e finalmente como mãe.