E a posteridade nos abençoará.
Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente uns aos outros:
—Não viram por ahi a hydra?
Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr. Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito imperfeito do verbo Mexer.
N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila, presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa.
Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para salvar a situação da falta da hydra:
O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz. Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil. Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente enterrado.