Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa, a photographia, a cordoaria, a fundição, etc.
A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não pódem constituir principios de programma, são communs a todos os partidos ou não são especiaes de partido nenhum.
Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.
Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica converte-se fatalmente em uma questão de compadres.
O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo, corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no favor da urna.
O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas!
Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido: a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja, é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado, aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever.
Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria. E do ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz apenas:—É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o compadre, vou para o partido d'elle.
O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.