P.J. PROUDHON
SUMMARIO
Congressos catholicos e ideias clericaes—Anjos e reprobos—As influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza—A egreja e as mulheres—Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de sala—Os clubs e as sacristias—O jogo, a batota, o rei dos lusos e o rei de copas, a rusga, a [vacca]—Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama illustre—Novas applicações da mobilia á critica litteraria—A moderna arte portugueza e as [escamas da corvina]—O jornalismo em Braga—O partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas—Sampaio o [Saraiva de Carvalho]—A augusta princeza anjo da caridade e do [bric-à-brac]—Tragico fim de um [gato] d'esse anjo—Fausto e jocundo desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua Santidade—A urna e a [corveta Stephania]—Os commendadores e os cães de faiança—-Milagrosa reapparição de [Nossa Senhora Apparecida].
«Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado... Está approvado.»
Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses cavalheiros,—papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou sacristães—Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de, assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.
Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo que nos concilios, mas reforçado com um cordel.
O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio, irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma venia e diz: