O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.

Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e ironica:

—Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho! se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas...

—Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!

E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e, delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.

Oh! amor!... amor!

Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito jornal o serafim a que nos reportamos.

Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em juizo.

Diz o jurado:

Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o ôlho á queixosa?