Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja, ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.

A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes, representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela religião.

Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por decretos ou por castigos humanos.

«Catholicos—disse Montalembert—se quereis a liberdade para vós, entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a deem em toda a parte onde fordes escravos.»

Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida, levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»


Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na historia das ideias clericaes.

O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a liberdade.

Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a liberdade da sciencia.

Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864. Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias liberaes do congresso com a publicação do Syllabus e da encyclica Quanta cura, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da civilisação.