Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal tres especies distinctas de padres:—o padre das missões, o padre d'aldeia e o padre de sala.
Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os aventureiros e os mysticos.
Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,—cerimonia tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos pretos do que elles são.
Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no Barbeiro de Sevilha, mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões inhospitas e selvagens.
Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para o outro:
—Saboroso padre! benza-o Manipanso!
O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.
A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e estonteadores.