O que é uma philosophia senão um systema de leis, deduzidas pelo espirito de cada um da confrontação das causas e dos effeitos dos phenomenos physicos e dos phenomenos moraes, e destinadas a fazer-nos prever, á mais longa distancia da nossa comprehensão pessoal, o destino do homem no gremio da sociedade e no seio da natureza?
Como é pois que alguem emprehende crear um philosopho de um menino de instrucção primaria, fazendo-o systematisar pelas altas e subtis correlações de causa e effeito um conjuncto de phenomenos, que elle nem sequer conhece na sua funccionalidade concreta, quanto mais na abstracção psychologica de fim e de origem?
O principio fundamental de todo o systema de educação e de ensino é—como já vimos—que, sempre e invariavelmente, se proceda dos factos particulares para as leis geraes e das leis geraes para as leis de applicação.
Como é então que a vossa alteza ensinaram leis de applicação sem o conhecimento previo das leis geraes e sem o conhecimento anterior dos factos particulares?
Que especie de philosophia é esta que vossa alteza aprendeu, tão extranhamente e tão miraculosamente como poderia ter aprendido a leitura sem o conhecimento das letras ou a arithmetica sem a noção dos numeros?…
É a instauratio magna de Baccon? É o scepticismo systematico de Descartes? É o metaphysismo de Hobbes e de Leibnitz? É o deismo de Locke ou o de Voltaire? É o sensualismo de Spinosa ou o de Condillac? É o scepticismo de Berkeley? É o materialismo de Holbach ou de La Mettrie? É o encyclopedismo de Condorcet? É o sentimentalismo de Rousseau? É o idealismo de Kant e de Hégel? É o pessimismo de Hartmann e de Schopenhauer? É o eclectismo do snr Cousin? É o revolucionismo de Proudhon? É o objectivismo de Stuart Mill e de Herbert Spencer? É o evolucionismo de Darwin? É o positivismo de Comte ou de Littré?
A informação que tão opportunamente baixou da aula de vossa alteza á redacção do Diario de Portugal arranca o nosso espirito perplexo a esta cruel duvida.
Diz-nos esse papel precioso que a philosophia que vossa alteza aprendeu é a philosophia racional e moral.
Ora, como vossa alteza talvez sabe, todo o termo affirmativo implica a negação de um termo contrario. Assim quem diz uma philosophia objectiva ou uma philosophia materialista, dá a perceber d'esse modo que ha uma philosophia subjectiva e uma philosophia espiritualista, mas que não é d'essas que se trata.
Os pedagogos de vossa alteza, insinuando-lhe que é racional e moral a philosophia que lhe ensinam, deixam entender que ha tambem uma philosophia immoral e uma philosophia irracional, opposta a essa. É triste o pensar que vossa alteza está desde de 1878 a estudar uma coisa que se converterá n'um systema de irracionalidade e n'uma doutrina de desmoralisação desde que vossa alteza se dê ao ligeiro trabalho de virar pelo avesso a tal coisa que lhe ensinaram.