É binaria a natureza de todo o homem superior. Metade d'elle pertence ao ramerrão passageiro de cada dia; a outra metade pertence ao ideal eterno de um mundo mais perfeito, em cuja obra cada um collabora procurando tornal-o, na orbita da sua aptidão pessoal, ou mais justo, ou mais rico ou mais bello.
Assim, cada um tem em si, superior a todas as torpesas da terra, impolluta, inviolavel e sagrada, a mystica torre eburnea em que habita a aspiração immortal do espirito do homem.
É preciso amar, meu senhor. Eis ahi tudo.
É preciso amar fóra da esphera de todos os interesses pessoaes creados pela sociedade de que fazemos parte e estabelecidos pelo estado, pela profissão ou pela gerarchia. É preciso amar pela abnegação e pelo sacrificio de tudo para se chegar a ser alguma coisa. É preciso amar uma ideia, uma propensão da sociedade, um intuito da naturesa, uma expressão da arte, ou simplesmente e unicamente uma mulher, como as amou Musset, Lord Byron, Shakspeare ou Petrarca, afim de sahir fóra da massa obscura do vulgo, e ser um homem.
Ame pois vossa alteza, e deixe correr o mundo!
Não há hoje em dia educação especial para o officio de rei nem para outro qualquer officio. Há uma instrucção geral e há uma instrucção technica para cada modo de vida. A educação essa é una e indivisível.
Em todo o estado e em toda a condição social o homem bem educado é um homem superior. O homem sem educação, por mais alto que o colloquem, fica sempre um subalterno.
No regimen de liberdade e de iniciativa, em que começam agora a viver as sociedades contemporaneas, a lei da concorrencia absorve tudo, e os reis mais solidamente equilibrados nos seus thronos não são senão os homens mais perfeitamente equilibrados na vida geral. Veja vossa alteza os moles principes dos reinos da Italia, que o avô materno de vossa alteza unificou, como em tão pouco tempo desappareceram todos, sepultados nas trevas de um silencio tragico! Compare-os com os reis, tão fortemente instruidos, das pequenas nações confederadas da Allemanha, e pondere como estes persistem na tradição e na continuidade histórica!
Portanto, e em conclusão:
Para dar ao throno portuguez um bom rei, pense vossa alteza em dar na sua pessoa á patria um cidadão instruido; á humanidade um homem justo; á natureza um sadio e valente animal.