Os resultados confirmaram quanto por essa occasião predissemos. Os pedagogos de vossa alteza educaram-o dentro da virtude mas fóra da natureza, fazendo de vossa alteza uma especie de rosière de Nanterre, cuja vida tivesse por fim servir de assumpto a um romance coroado pelas sociedades sabias e destinado a conferir-se em premio de animação ás engommadeiras virtuosas.
Conhece vossa alteza a Educação de um principe, de Edmond About? Recommendamos-lhe com empenho a leitura d'essa obra tão importante aos principes como o proprio livro de Machiavel.
Em lição digna das nossas mais graves meditações, About mostra-nos a tragica situação do principe Paulo no primeiro dia do seu noivado.
É alta noite. Findaram as festas do hymeneu em palacio. O monarcha agradeceu n'um bem elaborado speech as manifestações geraes do regosijo da côrte por occasião do feliz consorcio do principe herdeiro, applaudindo incondicionalmente as danças e as cantatas, e queixando-se apenas de pouca pimenta nos molhos mediocremente incendiarios do real banquete. Os musicos, desencanudadas as flautas, mettido o rabecão na caixa, e confiados os timbales ao moço da real capella, haviam-se retirado a seus tugurios. Os aulicos resonavam enconchados nos catres da regia mansão. E o commandante da companhia dos vivas, incumbido, mediante a esportula de 3:200 e jantar, de fazer de Povo nos dias de gala, havia terminado os seus trabalhos; o rei, com sua natural affabilidade, havia-lhe dito commovido, batendo-lhe no hombro e metendo-lhe na mão os 3:200: Obrigado, meu povo! e elle, com o vozeirão restaurado por duas gemadas, partira á pressa para ir levantar os vivas á Republica n'uma manifestação de provincia para que estava escripturado.
Tudo pois era silencio e trevas no regio alcaçar, quando o monarcha se ergueu, de chambre e chinelas, no louvavel intuito de espairecer dos duros encargos da publica governação espreitando um momento pela fechadura da porta da camara nupcial do principe Paulo e da princeza Margarida. N'isto, ao atravessar na escuridão o salão de baile, mudo, apagado e deserto, catrapuz! Era o rei que ia de corôa para baixo e de chichelos ao ar por cima de um fauteil, encambulhado n'um homem que dormia sentado ali assim. Gritos de pavão do monarcha aterrado, e cortezãos em ceroulas que chegam com luzes. Descobre-se que o rei cahira por cima do principe real, que estava noivando sosinho n'uma cadeira com o chapeu de bicos na cabeça, abraçado á espada dos reis seus avós.
—Que faz você aqui, seu estupido?—lhe perguntou o monarcha com voz acre.
—Eu nano—respondeu o principe sorridente e doce.—Como a princeza Margarida me disse que ia nanar para a sua camara e como eu agora não tenho camara para nanar, vim nanar para esta cadeira.
—Chamem os mestres de sua alteza!—bradou o rei iracundo, com um gallo na testa e com os braços cruzados no peito.
Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença, enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das orelhas, o rei disse-lhes:
—Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados) esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de um principe para com a sua princeza. E é para isto que eu tenho tido aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!… Ora muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio, elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara deve saber para não vir para aqui a estas horas nanar n'uma cadeira, decapito-vos a todos trez esta noite como quem decapita pelo entrudo tres perus gordos e emborrachados!