Romance de Avalor, que vem no capitulo XI da segunda parte das Saudades.
Pola ribeira de um rio,
Que leva as agoas ao mar,
Vai o triste de Avalor,
Não sabe se hade tornar.
As agoas levam seu bem,{[26]}
Elle leva o seu pesar,
E só vai sem companhia,
Que os seus fora elle leixar.
Cá quem não leva descanso,
Descansa em só caminhar:
Descontra donde ia a barca
Se ia o Sol a baxar.
Indo-se abaxando o Sol,
Escurecia-se o ar:
Tudo se fazia triste
Quanto havia de ficar.
Da barca levantam remo,
E ao som do remar
Começaram os remeiros
Do barco este cantar:
Que frias eram as agoas,
Quem as haverá de passar?
Dos outros barcos respondem:
Quem as haverá de passar?
Senão quem a vontade pôz
Onde a não pode tirar,
Trala barca levam olhos,
Quanto o dia dá logar.
Não durou muito; que o bem
Não pode muito durar.
Vendo o Sol posto contr'elle
Soltou redeas ao cavallo
Da beira do rio andar.
A noite era callada
Pera mais o magoar
Que ao compasso dos remos
Era o seu suspirar.
Querer contar suas magoas
Seria arêas contar,
Quanto mais se alongando
Se ia alongando o soar.{[27]}
Dos seus ouvidos aos olhos
A tristeza foi egualar;
Assim como ia a cavallo
Foi pela agua dentro entrar.
E dando um longo suspiro,
Ouvia longe falar:
Onde magoas levam alma
Vão tambem corpo levar.
Mas indo assi, por acerto,
Foi c'um barco n'agua dar,
Que estava amarrado á terra,
E seu dono era a folgar.
Saltou, assim como ia, dentro,
E foi a amarra cortar,
A corrente e a maré
Acertaram-no a ajudar.
Não sabem mais que foi d'elle,
Nem novas se podem achar;
Suspeitou-se que era morto,
Mas não é para affirmar;
Que o embarcou ventura
Para só isso guardar,
Mais são as magoas do mar
Do que se podem curar.
Romance que vem na Ecloga 5.ª ao qual se chamou Cuidado e Desejo.
Ao longo de uma ribeira,
Que vae polo pé da serra,
Onde me a mi fez a guerra
Muito tempo o grande amor,
Me levou a minha dôr;
Já era tarde do dia,{[28]}
E a agua d'ella corria
Por antre um alto arvoredo,
Onde ás vezes ia quedo
O rio, e ás vezes não.Entrada era do verão,
Quando começam as aves,
Com seus cantares suaves
Fazer tudo gracioso;
Ao rugido saudoso
Das aguas cantavam ellas;
Todalas minhas queréllas
Se me pozeram diante;
Ali morrer quizera ante,
Que ver por onde passei;
Mas eu que digo? passei!
Antes inda heide passar
Em quanto hi houver pezar,
Que sempre o hi hade haver.As aguas, que do correr
Não cessavam um momento,
Me trouxeram ao pensamento,
Que assim eram minhas magoas,
D'onde sempre correm aguas
Por estes olhos mesquinhos,
Que têm abertos caminhos,
Pelo meio do meu rosto.
E já não tenho outro gosto
Na grande desdita minha.
O que eu cuidava que tinha
Foi-se-me assim não sei como,
D'onde eu certa crença tomo,
Que pera me leixar veiu.{[29]}
Mas tendo-me assim alheio,
De mim o que ali cuidava,
Da banda d'onde a agoa estava,
Vi um homem todo caã
Que lhe dava pelo cham,
A barba e o cabello.
Ficando eu pasmado d'ello,
Olhando elle para mim,
Falou-me, e disse-me assim:
«Tambem vae esta agoa ao Tejo.»N'isto olhei, vi meu Desejo
Estar detraz triste e só,
Todo cuberto de dó,
Chorando, sem dizer nada,
A cara em sangue lavada,
Na bocca pósta uma mão,
Como que a grande paixão
Sua fala lhe tolhia.
E o velho que tudo via,
Vendo-me tambem chorar,
Começou assi a falar:
«Eu mesmo sou teu Cuidado,
Que n'outra terra criado,
N'esta primeiro nasci.
E ess'outro que está aqui
É o teu Desejo triste,
Que má hora o tu viste,
Pois nunca te esquecerá!
A terra e mar passará
Traspassando a magoa a ti.»Quando lhe eu aquisto ouvi,
Soltei suspiros ao choro;
Ali claramente o fôro
Meus olhos tristes pagaram{[30]}
De um bem só qu'elles olharam,
Que outro nunca mais tiveram,
Nem o tive; nem m'o deram:
Nem o esperei sómente.
De só ver fui tão contente,
Que pera mais esperar
Nunca me deram lugar.
E n'aquisto, triste estando,
Com os olhos tristes olhando
D'aquellas bandas d'álem,
Olhei, e não vi ninguem.
Dei então a caminhar
Rio abaixo, até chegar
Acerca de Monte-Mór.
Com meus males derredor,
Da banda do meio dia,
Ali minha Phantasia,
D'antre uns medrosos penedos,
Onde aves que fazem medos
De noite os dias vão ter,
Me saíu a receber
Com uma mulher polo braço,
Que, ao parecer, de cansaço
Não podia ter-se em si,
Dizendo:—Vês, triste, aqui
A triste Lembrança tua.—
Minha vista então na sua
Puz; d'ella todo me enchi:
A primeira cousa que vi,
E a derradeira tambem,
Que no mundo vão e vem!
Seus olhos verdes rasgados,
De lagrimas carregados,
Logo em vendo-os, pareciam
Que de lagrimas enchiam
Contino as suas faces,{[31]}
Que eram, gram tempo, paces
Antre mim e meus cuidados.
Louros cabellos ondados
Que um negro manto cobria:
Na tristeza parecia
Que lhe convinha morrer.
Os seus olhos de me ver,
Como furtados, tirou,
Depois em cheio me olhou.
Seus alvos peitos rasgando,
Em voz alta se aqueixando,
Disse assim mui só sentida:
—Pois que mór dôr, ha na vida,
Pera que houve ahi morrer?—
Calou-se sem mais dizer,
E de mi gemidos dando,
Fui-me pera ella chorando
Pera a haver de consolar...N'isto pôz-se o sol ao mar,
E fez-se noite escura,
E disse mal á ventura,
E á vida, que não morri...
E muito longe d'ali,
Ouvi de um alto outeiro
Chamar: Bernardim Ribeiro
E dizer:—Olha onde estás.—
Olhei de ante, e de trás
E vi tudo escuridão,
Cerrei meus olhos então,
E nunca mais os abri,
Que depois que os perdi
Nunca vi tão grande bem,
Porém inda mal, porém!
Obras. p. 351 ed. de 1852.{[32]}
CHRISTOVAM FALCÃO
Cantiga com suas voltas.
Não posso dormir as noites,
Amor, não as posso dormir.Desque meus olhos olharam
Em vós seu mal e seu bem,
Se algum tempo repousaram
Já nenhum repouso tem.
Dias vão e dias vem,
Sem vos vêr, nem vos ouvir,
Como as poderei dormir?Meu pensamento occupado
Na causa do seu pensar,
Acorda sempre o cuidado
Pera nunca descuidar.
As noites de repousar
Dias são ao meu sentir,
Noites do meu não dormir.Todo o bem que é já passado
E passado em mal presente,
O sentido desvelado,
O coração descontente.
O juizo que isto sente
Como se deve sentir,
Pouco deixará dormir.{[33]}Como não vi o que vejo
C'os olhos do coração,
Não me deito sem desejo,
Nem me ergo sem paixão;
Os dias sem vos vêr vão,
As noites sem vos ouvir,
Eu não n'as posso dormir.