Os tempos se mudarão,
A vida se acabará;
Mas a fé sempre estará
Onde meus olhos estão.{[35]}
Os dias e os momentos,
As horas com suas mudanças,
Amigas são de esperanças,
E amigas de pensamentos.
Os pensamentos estão,
A esperança acabará,
A fé não me deixará
Por honra do coração.
É causa de muitos danos
Duvidosa confiança;
Que a vida sem esperança
Já não teme desenganos.
Os tempos se vem e vão,
A vida se acabará,
Mas a fé não quererá
Fazer-me esta sem razão.


Outra cançoneta

Suspiros, minha lembrança,
Não quer, porque vos não vades,
Que o mal que fazem saudades
Se cura com esperanças.
A esperança me vai
Por causa, em que se tem,
Nem prommette tanto bem
Quanto a saudade faz mal.
Mas, amor, desconfiança,
Me deram tal qualidade,
Que nem me mata a saudade,
Nem me dá vida a esperança.
Errarão, se se queixarem
Os olhos, com que eu olhei,
Porque não me queixarei{[36]}
Em quanto os seus me lembrarem.
Nem poderá haver mudança
Jamais em minha vontade,
Ou me mate a saudade,
Ou me deixe a esperança.


JORGE FERREIRA DE VASCONCELLOS

Romance da batalha que El-Rei Arthur teve com Morderet, seu filho.

Gram Bretanha desleal,
Ao melhor rei que tiveste
D'agora, té o fim do mundo
Chora quanto bem perdeste:
Jaz no campo, entregue á morte
Que falsa, ingrata lhe deste,
A flor da cavalleria
Com que te ensoberveceste.
A pena tem já da culpa
Que lhe assi favoreste,
Oh traidor de Mordereth,
Porque um tal rei vendeste?
Oh Bretanha desleal
Que grande traição fizeste,
A vinte quatro da Távola
Que por Ginebra escolheste.
Á demanda do Grial
Triste remate poseste;
Morto jaz de mil feridas,
E tu, soberba lh'as deste,
Dom Galvão tão animoso
Por quem mil glorias tiveste;
E matar Dom Galeazo
Ingrata como podeste?{[37]}
Que em obras de fortaleza,
Não sei se outro egual houveste!
Pôde matar-te Bretanha
Que tu tanto engrandeceste!
Esforçado Flordemares,
Que em forças mares venceste,
A morte, que em defenderes
Tal rei, d'ella padeceste.
Oh animado Troyano,
Nunca lh'o tu mereceste,
Mal lhe merecias, mal
O que d'ella recebeste.
Palamedes, oh pagão
Que nas armas floreceste:
Dom Tristão de Leonis,
Que por amores morreste.
Em não morreres aqui
Ditosa sorte tiveste,
Tu, Lançarote do Lago
Que as glorias de amor houveste;
De damas servido, amado
Da dona a quem mais quizeste,
Com dano dos traydores
Á morte a que te rendeste.
Ficarás sem sepultura
Co'a pena que mereceste
Tu traidor Morderet
Pois tal traição commetteste
Aqui se acabou a gloria
Quanta, Bretanha, tiveste:
Em pago da qual a Arthur
Nem a sepultura deste.
Cá na Ilha de Avalom,
Merlim, vergel lhe fizeste,
Em que vive, e só salval-o
De affronta e morte podeste.{[38]}
Como amigo que as más manhas
De Bretanha conheceste,
Mas n'algum tempo inda Arthur,
Bom Rei que desmereceste,
Bretanha virá a vingar-se
Da traição que lhe fizeste.

Memorial das Proesas da Segunda Tavola Redonda, cap. III.