Memorial, cap. XXXV.
Romance da Historia de Roma.
De ti casto Scipião
Sofonisba ouvi queixar,
Que foste imigo de amor
Por querer d'ella triumphar.
Na forte cidade Cirta
Masenisa fôra entrar,
E por teu mandado Sifax
Seu marido foi matar.
Com furia e odio imigo
Nos seus paços fôra dar,
Mas na mór força da furia
Amor o pôde amansar:
Dos encontros dos seus olhos
O seu coração domar.
De escrava feita senhora
De quem vinha cativar,
De eterno amor dada fé,
As almas foram trocar:
Lagrimas e fermosura
Tudo puderam acabar.
Sabido per Cipião
Que amor não pôde abrasar,{[45]}
Com coração deshumano,
Com razoes não de acceitar,
A Masenisa escrevia
Que lh'a mandasse entregar,
Porque era imiga de Roma
Da geração de Amilcar.
Em grande affronta se vê
Masenisa e gram pesar,
O coração não lhe leva
Á Sofonisba faltar.
Cuidou um mui duro meio
Pera haver de a libertar!
Uma cópa de peçonha
Lhe mandou appresentar,
Em logar da liberdade
Que lhe não podia dar.
Sofonisba muy contente
A bebeu sem receiar,
Sentindo somente a dor,
Que se não pode escusar,
Por amor da Masenisa
Que vive pera a passar.
Dizendo: «Por vós, amor,
Me quero sacrificar,
Não será d'outro cativa
Quem toda se vos quiz dar.»
Mal haja fortuna imiga
Que tal amor foi cortar.
Memorial, etc. cap. XIII.{[46]}
Romance da vespera da batalha da Pharsalia
De Roma sahe Pompeo,
E toda Roma o seguia,
Com temor de Julio Cesar
Que de França já partia.
O Robicão tem passado
Contra Roma traz a via.
Apesar do bom Metelo,
Do thesouro se provia,
Apoz Pompeo se vae,
E Pompeo que o sabia,
Em Brandusio se faz forte,
E d'ali per mar fugia;
Desamparando a Italia
Defendel-a pertendia,
De romanos e outra gente
Grande exercito fazia;
A Cesar dera batalha
Se o seguira vencia,
Por arredal-o do mar
Fugir-lhe Cesar fingia:
Ser arte de capitão
Pompeo bem o entendia,
A Cesar, contra o que entende,
E a seu pesar, seguia.
Já nos campos de Pharsalia
Um contra o outro se via,
Vendo-se chegado á summa
Pompeo do que temia.
Oh que grande senhorio
O conjugal amor cria,
Que só Cornelia é a causa
Que reprime o que cumpria;{[47]}
É-lhe forçado apartal-a,
Dilata-o de dia em dia,
No seu leito sem repouso
Chorando, cá não dormia.
Cornelia tem a seu lado
Que animal-o commetia,
De lagrimas suas faces
Humidas ali sentia.
Dissimula, cá não ousa
Tomal-o em tal agonia,
Parecendo-lhe que o magno
Pompeo assi se abatia.
Elle que a sente e entende
Taes palavras lhe dizia:
«Mulher, a que eu mais que a propria
Vida, ditosa queria,
Não esta que me aborrece
Mas quando ledo vivia,
É vindo o tempo que eu triste
Dilatado, e já não podia
Cá Cesar está no campo
E a batalha offerecia;
Cumpre dar logar á guerra
Mandar-te a Lesbos queria;
O al tenho a mi negado,
Não cures de mais porfia,
Este nosso apartamento
Por muito pouco seria.
Do teu verdadeiro amor
Confiança não teria
Se vêres esta batalha
O coração t'o soffria.
Corro-me de estar comtigo
Quando a guerra assi fervia;
Mais seguro é que de longe
Ouças o que succedia,{[48]}
Se me a fortuna fôr falsa
E se me Cesar vencia!
A melhor parte de mim
Segurar, sequer, queria.
Quero ter onde me ir possa
Segurar minha agonia.»
Cortada de mortal dor
Cornelia, que isto ouvia,
Esforçando-se com dor
A triste assi respondia:
—Dos deoses e da fortuna
Já me queixar não podia,
Pois per morte não me aparta
Da conjugal companhia,
Ser como vil engeitada
De ti, d'isto me sentia.
Cuidares que algum logar
Sem ti me seguraria!
E queres, se fôres morto,
Que viva ainda algum dia?
Já me ensinas a soffrer
Dor que nem cuidar soffria:
A mulher do gram Pompeo
Esconder não se podia.
D'onde se desbaratado
Fôres, isto só pedia:
Salva-te em toda outra parte
E de Lesbos te desvia.»
Partindo-se d'elle agora
Um do outro não se espedia.
A Lesbos se vae Cornelia
Pompeyo logo a seguia.
Vencido vae de seu sogro
Tal Cornelia o recebia.
«Esta é a minha fortuna
Que me inda segue» dizia.
Memorial das Proezas, etc. cap. 45.{[49]}