Marquez:

Segundo d'elle se espera,
Aquelle homem anda perdido,
Ou por ventura ferido
De alguma d'estas féras.
Quero vêr este mysterio,
Que a fala me dá ousadia:
Porque dois em companhia
Tem mui grande refrigerio
Para qualquer agonia.

Valdevinos:

Oh minha esposa e senhora,
Já não tereis em poder
Vosso esposo que assim chora,
Pois a morte roubadora
Vos roubou todo o prazer.
Oh vida de meu viver,
Resplandecente narcizo,
Gram pena levo em saber,
Que nunca vos heide ver
Até o Dia de Juizo.
Oh esperança, por quem
Tinha victoria vencida!
Oh minha gloria, meu bem;
Porque não partis tambem,
Pois que sois a minha vida?
Se não fôr vossa vontade
De haver de mim compaixão,
Mandae-me meu coração,
Minha fé e liberdade,
Que está em vossa prisão.
Madre minha muito amada,
Que é do filho que paristes
De quem ereis consolada?
Como se ha tornado nada
Quanta gloria possuistes?
Já me não vereis reinar,{[66]}
Já me não dareis conselho;
Nem eu o posso tomar,
Que quebrado é o espelho,
Em que vos sabeis olhar.
Já nunca me haveis de vêr
Fazer justas e torneios,
Nem vestir nobres arreios,
Nem Cavalleiros vencer,
Nem tomar bandos alheios.
Já não tomareis prazer
Quando me virdes armado,
Já vos não virão dizer
A fama de meu poder,
Nem louvar-me de esforçado.
Oh valentes Cavalleiros,
Reinaldos de Montalvão,
Oh esforçado Roldão,
Oh Marquez Dom Oliveiros,
Dom Ricardo, Dom Dudão,
Dom Gaiferos, Dom Beltrão,
Oh Grão Duque de Milão,
Que é da vossa companhia
Duque Maime de Baviera,
Que é de vosso Valdevinos?
Oh esforçado Guarinos,
Quem comsigo vos tivera!
Meu amigo Montesinhos,
Já nunca mais vos verei;
Dom Alonso de Inglaterra,
Já não acompanharei
O Conde Dirlos na guerra.
Oh esforçado Marquez
De Mantua, teu senhorio,
Já não me poreis arnez,
Nem me vereis outra vez
Gozar vosso poderio.{[67]}
Já não quero vosso estado,
Já não quero ser pessoa,
Nem mandar, nem ter reinado,
Já não quero ter corôa
Nem quero ser venerado.
Oh Carlos Imperador,
Senhor de mui alta sorte,
Como sentireis grão dôr
Sabendo da minha morte,
E quem d'ella é causador!
Bem sei, se for informado
Do caso como passou,
Que serei mui bem vingado,
Ainda que me matou
Vosso filho mui amado.
Oh Principe Dom Carloto,
Quem, sendo tão desigual,
Te moveu a fazer mal
Em um logar tão remoto
A teu amigo leal?
Alto Deos omnipotente,
Juiz direito sem par,
Sobre essa morte innocente
Justiça queiraes mostrar,
Pois morro tão cruelmente.
Oh madre de Deos benigna,
E fonte de piedade,
Arca da santa Trindade,
De donde o Verbo divino
Trouxe sua humanidade.
Oh Santa Dómina mea,
Oh Virgem gratia plena.
Em que a alma se recreia
Dá remedio á minha pena,
Pois que morro em terra alheia.{[68]}

Marquez:

Senhor, porque vos queixaes?
Quem vos tratou de tal sorte?
E quem é o que tal morte
Vos deu, como publicaes,
Que assás é esta má sorte!
Não me negueis a verdade,
Contae-me vosso pezar,
Que vos prometto ajudar
Com toda a força e vontade.

Valdevinos:

Muito me agasta, amigo,
Certamente teu tardar,
Dize se trazes comtigo,
Quem me haja de confessar?

Marquez:

Eu nao sou quem vós cuidaes;
Nunca comi vosso pão,
Mas vossos gritos e ais
Me trouxeram aonde estaes
Mui movido á compaixão.
Dizei-me vossa agonia,
Que, se remedio tiver,
Eu vos prometto fazer
Com que tenhaes alegria.