A triste Adriana não pôde conceber em seu Esposo huma mudança tão repentina: ella estava muito bem persuadida de sua infidelidade: as liberalidades do Barão já se tinhão notado, e a sua familiaridade com Safira era publica a toda a Corte. A desafortunada Baroneza deixou ao tempo o cuidado de fazer tornar a si este infiel: ella se persuadia que aquillo mesmo que lhe tinha roubado seu Esposo, poderia da mesma sorte restituir-lho. Além disto ella sabia que o unico meio de reganhar hum inconstante, era mostrar-se ignorante de sua perfidia, servindo-se sómente de paciencia, e de doçura. As reprehensões irritão; o silencio nos condemna, e nos faz entrar em nós mesmos.
Ella tomou pois este partido; e escreveo ao Barão dizendo-lhe, que se elle tinha negocios na Corte, ella partia á sua Patria a tratar de seus interesses; e que lá esperava noticias suas. Sem lembrança de resposta, ella partio logo, penetrada de dôr, e desesperação. Ella adorava o Barão: sua inconstancia a penetrou sensivelmente. O retiro em que ella vivia, longe de extinguir seu amor, lhe deo pelo contrario novas forças. Sómente corações sensiveis, que tem experimentado a mesma sorte que Adriana, podem julgar da grandeza de seus males.
O Barão, sempre encantado de sua querida Safira, parecia ter-se inteiramente esquecido de Adriana: elle sobre isto nada fallava a seus amigos; e ninguem da mesma sorte se atrevia a fallar-lhe: elle mesmo nunca mais lhe escreveo. Sempre occupado de sua amante, não a deixava hum só momento. Elle a retirou da comittiva do Imperador, que tinha partido para Hespanha. Elle lhe procurou huma casa toda abundante; e prazeres sempre novos prevenião continuadamente os desejos da galante Safira, ambos no meio das delicias julgavão perpetua a sua felicidade!
As pessoas de honra começárão a murmurar: ainda não era costume, e principalmente em Flandres, vêr-se o escandalo sem desassocego. Quanto estes tempos se tem mudado! Presentemente se faz consistir nisto mesmo a fidelidade; ninguem se envergonha de tratar como respeitaveis estas uniões criminosas quando ellas são duraveis: o crime applaudido goza hoje das vantagens da virtude. A vida publica de Nierkove, e de Safira indispunha o povo; e disto mesmo elles forão informados. O Barão para evitar tudo isto, resoluto a ir estabelecer-se em Veneza, desfez-se de seus contratos, e de suas terras, para fazer transportaveis todos os seus bens. Adriana, que não ignorava o menor passo de seu marido, não pôde resistir a este ultimo golpe. Transportada, de furor...
Ingrato, exclama ella, he este o fructo do amor que em mim tens experimentado. A perda de teus bens não he o que me afflige: liberaliza-os á tua indigna, e vil Safira, porém restitue-me o teu coração. Torna a mim querido, e cruel Esposo; meu amor te perdoa... Mas, que digo? O infiel vai partir... Póde ser que elle se aparte de mim para sempre!... Não, perjuro!... tu não me escaparás, eu saberei punir-te minha vingança fará tremer, servindo de exemplo áquelles, que como tu, desprezão a ternura de huma Esposa desafortunada... Eu tenho procurado todos os meios de te recuperar; o tempo, meu silencio, minhas lagrimas, minha desesperação, não tem podido abrandar-te... A morte só é... Que digo eu? Ai de mim!... Sim, sim, cruel, a morte só vai unir-vos.
Adriana escreveo logo a huma de suas amigas, e lhe pedio em hum escripto separado que só abrisse sua carta, passados oito dias; porque ella continha cousas de ultima importancia, que se devião ignorar até este tempo.. Ella fez logo pôr grades em todas as janellas de seu aposento, e pregar nas portas fechaduras occultas, cujo segredo só ella conhecia. No mesmo tempo dispoz tudo de sorte que pudesse prosperar o terrivel projecto, que tinha meditado. Quanto he para temer huma mulher justamente irritada! A desesperação occupa toda a sua alma; a vingança a mais terrivel lhe parece suave; as maiores extremidades meios ordinarios; e sua propria fraqueza parece dar-lhe todas as forças.
Tudo assim disposto, ella finge huma doença mortal: de huma mão tremula ella escreve a seu Esposo: Eu morro, e vos perdo-o. Eu não vos imputo a minha morte, e rogo ao Ceo que vos inspire o arrependimento. Vós recebereis todos os meus bens da mão de hum amigo commum, que delles será o depositario. Eu não choro a vida; porque nem tenho filhos, nem Esposo, ai de mim! que me pertenção. Poucas horas tenho já de vida; ao menos concedei-me a graça de vos tornar a vêr a ultima vez. Vivei feliz, eu morro, e vos adoro.
O desgraçado Barão cahio no laço, que era difficil evitar-se. Elle se persuadio que não devia honradamente deixar de vêr sua mulher morrendo: este passo lhe pareceo innocente, e a lembrança do deposito lhe facilitava o meditado projecto de fugir com Safira. O interesse teve muito mais poder sobre seu coração do que o amor. Safira, que não podia suspeitar a desgraça de seu amante, o persuadio a que desse esta ultima consolação á Baronesa espirando. Elle parte, e em poucos momentos elle chega á sua terra. A tristeza, que elle vê espalhada entre toda a familia, moveo sua piedade. Hum negro presentimento se apodera de seu coração, e sem poder dar conta de seu transporte, elle entra tremendo na Camara de sua Esposa. As gentes, que á vinda inesperada de Nierkove, tinhão ordem de se retirar, os deixão sós. A furiosa Adriana fecha logo todas as portas. De repente, com os olhos errantes, ella se levanta, e vai a seu gabinete pôr fogo, (sem que seu marido disto se aperceba) a algumas materias combustiveis, que ella tinha preparado; e logo torna, e se lança repentinamente sobre seu leito. O Barão aterrado quer chamar soccorro, persuadindo-se que era isto effeito de transporte: porém qual foi seu espanto quando elle vio de repente toda a casa em fogo. Treme, perjuro, exclama Adriana, e reconhece huma Esposa ultrajada: já que tu não tens podido viver comigo, ingrato, ao menos poderás morrer. A violencia da chamma, que vai a consumir-te, não igualará jámais os fógos, que me tem abrazado por ti... A estas palavras o fumo lhe tira a respiração: o Barão sobresaltado debalde procura salvar-se. Bem depressa a chamma sahe pelas janellas: correm a soccorrellos; arrombão-se as portas; porém já he tarde: estes Esposos se achão prostrados, e já meios consumidos.
Os progressos deste incendio forão tão rápidos, que em pouco tempo todo o edificio foi reduzido a cinzas. A noticia chegou logo a Gand: assentou-se que este fogo tinha sido effeito da casualidade; porém a carta que Adriana tinha escripto á Viscondessa Coppens, sua amiga, revelou este horrivel misterio. Ella queria sem duvida deixar á posteridade hum tremendo exemplo da vingança de huma mulher desesperada, e huma imagem terrivel do castigo de hum Esposo perjuro, e querido.