Com effeito ElRei D. Fernando se offereceo de motu proprio a mandar-lhe soccorro, e no mesmo instante ordenou que o Infante D. Alonso de Molina se dirigisse para Portugal, e que D. Diogo Lopez de Haro, senhor de Biscaya, o acompanhasse. Era este o proprio irmão de D. Mecia Lopez, mulher d'ElRei D. Sancho. Muitos outros fidalgos partírão com elles, mas já uma parte do reino pertencia ao Conde.

Todavia, quando o Conde de Bolonha soube da vinda d'ElRei D. Sancho, reunio certos prelados, que escrevêrão aos frades de S. Francisco da Covilhã, executores das penas fulminadas nas cartas do Santo Padre, afim de cumprirem o seu officio. Estes fôrão immediatamente ter com ElRei e com o Infante de Molina, e lhes advertírão, que, debaixo de pena de excommunhão, houvessem de respeitar as ordens do Papa. D'esta sorte elles não ousárão avançar além da villa d'Abiul; e, muito melhor ainda, tornárão a tomar o caminho que primeiramente havião seguido.

Então o Infante, e os fidalgos que vinhão com{9} elle, aconselhárão ElRei que ficasse em seu reino como lhe fôra determinado, ou que fosse com elles para Castella. ElRei escolheo não ficar em Portugal.

Depois d'esta vergonhosa fugida, quasi nenhuns fidalgos ficárão n'este reino que não seguissem o partido do Conde de Bolonha; porque, emfim, era Portuguez, filho de seu Rei natural, homem prudente e de bom governo. Mas quanto ás praças fortes, os Alcaides estavão tão constantes em sua lealdade que quasi não havia quem o recebesse de bom grado, por causa do juramento. Só Fernando de Taíde, Alcaide mor de Leiria, foi quem recebeo no seu castello o Conde de Bolonha, e por causa d'este unico facto, ficou reputado por infame entre os homens d'aquelle tempo. O author do Nobiliario ou livro das linhagens de Portugal, o Conde de Barcellos, o proprio neto do Conde de Bolonha, nota de traidores e cobardes a Sueiro Bezerra e seus filhos, porque, esquecendo-se de sua homenagem a ElRei D. Sancho, entregárão certas fortalezas que commandavão na provincia da Beira, e isto sem serem cercados.

Mas nem todos os Alcaides fizerão o mesmo e eis-aqui como se portárão com o Conde de Bolonha os que commandávão em Celorico, e se conservavão pelo antigo Rei na cidade de Coimbra.

Fernando Roíz Pacheco era Alcaide commandante da primeira d'estas fortalezas na Beira, mas tinha-se sempre recusado a entregar as chaves d'ella ao Regente, de sorte que o Conde, nada podendo concluir, nem com affabilidade, nem com promessas, lhe veio pôr cerco diante do castello. Muitos ataques fôrão renovados, mas, graças á fortaleza do logar, e á bravura da gente que Pacheco tinha comsigo,{10} as forças do Conde estacárão, e o cerco durou tanto tempo, que os víveres vierão a faltar aos de dentro. Virão-se então estes bem depressa reduzidos a uma tal extremidade pela fome, que, para não morrerem de uma morte desesperada, se achavão promptos a entregar a fortaleza.

Estando a ponto de soffrer esta vergonha, conta-se que Fernando Roiz se levantára um dia muito de madrugada, e que entrára a andar pelas trincheiras. Submergido em diversos pensamentos, não sabendo já, n'uma tal situação, a que se resolvesse, pedíra a Deus, que, por sua misericordia, o soccorresse n'um tal trabalho, e que sobre tudo lhe poupasse a vergonha, impedindo-o de entregar o castello a quem o não devia fazer.

Em quanto elle estava n'estas imaginações, vio levantar-se das praias do Mondego, que corre mui perto d'ali, uma aguia que levava nas garras uma truta mui grande. Como o passaro tomasse o vôo por cima do castello, eis que a truta cahio sobre as trincheiras. Fernando Roiz ficou um pouco alegre com este acontecimento. Depois uma idéa lhe occorreo de repente: vendo aquella truta tão bella, e tão fresca, mandou-a preparar, e meter n'uma empada, e depois enviou-a de presente ao Conde de Bolonha; mandando-lhe dizer que bem podia sustentar o cerco, quanto tempo fosse da sua vontade; mas que se era por fome que esperava que elle se rendesse, houvesse de considerar o que devião fazer pessoas d'aquella maneira providas, e com taes iguarias, accrescentando que era pouco provavel que o vissem entregar o castello contra a sua honra. O Conde, e os que estavão presentes, ficárão extremamente maravilhados, não sabendo como isto tinha podido acontecer. Vendo, pois, que de prolongar o cerco nada{11} de bom lhe resultaria, o Regente se retirou com o seu exercito.

Eis-aqui o feito do bom subdito.

Não restava em Portugal, da parte de D. Sancho, senão o castello de Coimbra: mas era a fortaleza mais honrosa do reino, porque esta cidade tinha o titulo de capital, e servia de residencia aos Reis. Quem ali governava era D. Martim de Freitas, Cavalleiro muito famoso, e de illustre ascendencia. Tendo o Conde feito todas as diligencias possiveis com elle para que lhe entregasse a praça, antes de recorrer ás armas, Freitas o desenganou de taes esperanças, e lhe disse: que em quanto vivesse ElRei D. Sancho, nada lhe seria entregue sem sua ordem; e que para elle, D. Martim, a morte ou os máos tratamentos erão cousa menos de temer que a deslealdade. Que portanto podia dispensar-se de lhe meter medo com a morte, ou com outros perigos, porque estava decidido a soffrer tudo; e que, finalmente, elle não estava no mundo para fazer estado da vida, mas sim para ganhar honra, e para a conservar. O Conde pôz o cerco, e fez atacar muitas vezes o castello.