Uma outra neuma caracteristica da Peninsula, mas já peculiar da raça celtica é o Guay, que chegou a constituir um genero dos cantares guayados, do que ainda falla Gil Vicente. Os romances peninsulares assim como começavam «Helo, helo, por do viene» tambem tem outro principio, como «Guay Valencia, Guay Valencia.» É aquelle grito celtico Woe! Woe! que ainda hoje se conserva na Escossia como uma vehemente expressão natural. A gaita de folles da Escossia é similhante á gaita gallega, em tempo admtida no exercito hespanhol como meio salutar na nostalgia dos recrutas da Galliza. Como o gaëls das montanhas da Escocia, que, longe da patria, na America do norte ou nas florestas do Canadá, falla o inglez, mas sonha e sente no dialecto gaëlico, é assim o gallego entregue aos trabalhos braçaes longe da sua patria, ou nas guarnições militares; as cantigas do Alalála, a Muiñera trazem-lhe á lembrança o ár das suas montanhas: Ayriños de miña terra, que elles aspiram n'esse hausto de saudade, Guay!
Vejamos como por seu termo a influencia do genio celtico faz prevalecer esse profundo caracter de unidade tradicional do lyrismo moderno. Na civilisação da Peninsula, a Galliza occupa uma posição excepcional como a Provença para com a França; a sua longa tranquilidade fel-a adoptar o gosto lyrico da Eschola da Aquitania; e assim como a poesia provençal foi o desenvolvimento litterario de cantos tradicionaes do meio dia da França (celto-romana) como ainda se descobre por uma rubrica de uma canção do conde Poitiers, na Galliza sugere as formas novas e o estylo lyrico popular aos trovadores portuguezes e castelhanos. Não basta sómente Strabão considerar os Aquitanios mais parecidos com os Iberos (da fusão celtibera) do que com os gaulezes (reconhecidos como raça scythica[39]) ha um fundo commum de poesia lyrica pertencente á Italia, á Provença, á Galliza, e a Portugal, que comprova a existencia de um mesmo elemento ethnico n'estes paizes. Onde povos celticos se cruzaram com iberos, ou tribus turanianas, persistiu a primitiva tradição lyrica. A publicação moderna de algumas Pastorellas provençaes levou a presentir pela comparação essa unidade. Os restos de Dizeres e Serranilhas, que Gil Vicente intercala nos seus autos, são vestigios de canções gallegas do seculo XIV, tal como se lêem no Cancioneiro portuguez da Vaticana[40].
Uma Pastorella de Guido Cavalcanti traz estes versos quasi identicos a uma das serranilhas de Gil Vicente:
E domandai si avesse compagnia?
Ed ella me rispose dolcemente
Che sola, sola per lo bosco gia[41].
E em Gil Vicente:
Cheguei-me per'ella com gram cortezia,
Disse lhe:—Senhora, quereis companhia?
Disse-me: Escudeiro, segui vossa via[42].