Na renovação do lyrismo moderno é de Coimbra que partem os mais poderosos e decisivos impulsos; a escola do Trovador reune a mocidade academica de 1848, de que o principal vulto foi João de Lemos. Mas essa mocidade vivia no idylio insulso «sobre as azas da saudade», como se vê na festa da Primavera; inspirava-se do christianismo de Chateaubriand, acreditava devotamente na monarchia, contentava-se com tres nomes da historia patria para symbolisar toda a tradição nacional, e na sua ingenuidade não sabia conhecer as banalidades que punha em verso de redondilha, nem sabia os justos limites de uma exhuberancia fastidiosa. Ao entrar nas lides politicas esta camada esterilisou-se, e os poucos que conservaram um debil culto litterario ficaram constituindo a pretendida geração nova. Esta devera ser considerada a primeira phase da Eschola de Coimbra. Passou rapida; quasi que desconheceu o espirito revolucionario, e influiu sobre Portugal inteiro contagiando um falso estylo poetico, causa de todos os máos livros de versos que ainda apparecem de algum incomprehendido de provincia.

A vida academica é excepcional; a mocidade acha-se de repente livre dos vinculos da familia, senhora de si, meia irresponsavel, e em conflicto de costumes, de opiniões, de vaidades, e separada da direcção espiritual dos seus professores. Vive na indisciplina, alimenta-se das phantasmagorias theoricas, dispende um immenso vigor na dialectica, e por ultimo quando entra na realidade da vida em grande parte succumbe. O lente occulta a sua ignorancia e estupidez no isolamento doutoral; despreza o estudante, a quem nunca dirige a palavra, e impõe-se respeito pelo terror da reprovação! A mocidade liga-se contra este pedantismo, alimentando-se com as suas proprias leituras, fortalecendo-se com exercicios de argumentação, e amarrando os seus ogres a epigrammas eternos, como este:

Aquelle homem feio

E de aspecto máo,

É o Pedro Penedo

Da Rocha Calháo!

ou a epithetos pittorescos, como o Cão de quinta, o Doutor Hemoroide, o Marmellada.

Ali a cada geração academica succede-se a influencia de um dado philosopho; já no seculo passado o Intendente Manique accusava nas suas Contas para as Secretarias quaes os livros que andavam nas mãos dos estudantes, taes como as obras de Voltaire, Rousseau, Reynal, Bayle, Hobbes, etc. Na epoca de Garrett lia-se secretamente Dupuis; e ás differentes gerações se foram succedendo Chateaubriand e Aimé Martin, depois Krause, depois Pelletan, Quinet e Michelet, depois Vico, Hegel e Augusto Comte. Foram differentes correntes de ideias que revolucionaram o espirito da mocidade; os seus professores ficaram na ordem mental em uma especie de nirvana buddhico. D'essa mocidade, os que se impulsionaram pelas theorias metaphysicas ao entrarem na vida publica nada deram, e deixaram atrazar as cousas pela sua propria esterilidade. Sob a influencia de Aimé Martin e Krause, succedeu-se na poesia a segunda phase da Eschola de Coimbra, representada pelo Novo Trovador. O seu principal vulto foi Soares de Passos; veiu n'essa epoca em que ao exagero das paixões no theatro correspondia no lyrismo a melancholia tenue representada na Allemanha por Novalis, na Inglaterra pelos Lakistas, em França por Millevoye e Lamartine, e na Italia por Leopardi e Manzoni. Soares de Passos inspirou-se d'este desalento contagioso mas tardio, a que o proprio Garrett, em França, não escapou no poema Camões. Elle é o poeta da tristeza; todos os sentimentos que retrata, a admiração por Camões, a elevação deísta diante do Firmamento, a independencia no canto do Escravo, em tudo o tom natural a que vem sempre ter é a tristeza. Esta caracteristica explica-nos toda a sua acção litteraria. Esse sentimento de pesar e desgosto, em parte motivado pela doença physica de que morreu, tirou-lhe a individualidade, não o deixou ser iniciador; nenhuma das suas bem trabalhadas odes era capaz de suscitar uma eschola de poesia; é geralmente imitador, agrada-lhe o vago e indeterminado, e por isso traduz o primeiro canto de Fingal; ainda com o fervor dos bons tempos de um Werther, imita as balladas phantasticas do norte, conhecidas através das versões de Marmier, como no Noivado do sepulchro; é mystico, seguindo Lamartine na Morte de Socrates e no Firmamento. Esse sentimento de tristeza expresso sem banalidade mas sem individualidade, tornou os versos de Soares de Passos distinctos entre a multidão das collecções metricas, sobretudo quando a morte prematura do poeta veiu dar o perstigio prophetico aos seus presentimentos. Soares de Passos escreveu pouco em metro octosyllabo, o bastante para se conhecer que nos seus primeiros tempos de noviciado poetico de Coimbra soffreu a influencia da eschola do Trovador. A sua perfeição explica-se pelo limitado numero de composições que deixou; emendava sempre, calculadamente e com a pericia de quem tem só um sentimento a exprimir e já muitas vezes retratado[7].

O que fez Soares de Passos para a tristeza, fez João de Deus para o amor; n'elle começa a terceira phase da Eschola de Coimbra. Ninguem sentiu melhor o idealismo camoniano, perdido desde o fim do seculo XVI, ninguem levou a fórma á mais alta perfeição, ninguem como elle exerceu ainda uma acção mais funda e salutar na transformação da poesia portugueza. É o mestre de nós todos. Deixou entre as gerações escholares uma tradição luminosa como de um provençal, e a sua organisação absolutamente artistica prejudica-o no conflicto de uma sociedade burgueza. O que lhe faltava, e que esterilisava as suas faculdades creadoras, suppriram-n'o os poetas do periodo indisciplinado da Eschola de Coimbra, que por seu turno actuaram sobre o genio de João de Deus; suppriram-n'o pelo estudo, primeiro, de Quinet e Michelet, depois de Vico, Hegel e Augusto Comte, d'onde provieram esses dois ramos da poesia revolucionaria, socialista representada pelas Odes modernas, e da concepção philosophica da historia realisada na Visão dos Tempos. N'este caminho a poesia portugueza achou outra vez o seu destino. O que provinha da anarchia metaphysica dispendeu-se em um clarão repentino[8], o que conduziu para a synthese positiva tornou-se fecundo, produzindo a exploração scientifica das tradições da nacionalidade portugueza, a creação da nossa historia litteraria, e a base critica para o estudo da nossa pedagogia, da politica e da previsão do que é preciso que se faça. Á influencia das Odes modernas pertence essa poesia chamada satanica, de um pessimismo á Baudelaire, facil de imitar e mais facil em illudir o gosto dos que aspiram a uma ordem nova. A Visão dos Tempos, pouco imitada no pensamento, exerceu maior influencia pela fórma da versificação e dos poemetos; o pensamento era converter em mythos modernos e conscientes a concepção philosophica das grandes epocas da humanidade, ao contrario dos mythos anonymos e inconscientes das edades primitivas que ainda hoje nos estão atrazando; a fórma procurava alliar a acção de Garrett com a de João de Deus. A apparição d'este espirito novo está ligada a uma grande pugna litteraria, encetada com a carta intitulada Bom senso e bom gosto e Theocracias litterarias[9]. A esse impulso appareceram novos obreiros, que inauguraram a sciencia da Linguistica e da philologia romanica, e a Archeologia artistica; a educação scientifica elevou-se, como se viu na nova questão litteraria do Fausto e na Bibliographia critica de Historia e litteratura; a critica dos costumes achou a sua direcção nas Farpas, e o romance attingiu a sua admiravel perfeição realista no Crime do Padre Amaro. A falta de efficacia de todo este movimento provém da desmembração dos obreiros. Pelo criterio ethnico da historia litteraria e pela philologia, é que a poesia brazileira e gallega foram comprehendidas como fórmas homogeneas do lyrismo portuguez; longo tempo desprezadas, é d'ellas que ha de vir o descobrir-se o verdadeiro espirito d'este lyrismo nosso, que apenas se faz valer não pelo que tenha de nacional, mas sómente pelo modo como serve a ideia revolucionaria.

NOTAS DE RODAPÉ: