A Maria Santissima.

Ó nossa Princeza, a vós é que Deus concede toda a qualidade de graças. Sois chamada cheia de graça, porque concebestes por obra do Espirito Santo, que desceo sobre vós; ouví pois, ó Santissima Virgem, as nossas supplicas, e lembrai-vos de nós. Participai-nos os dons das vossas riquezas, e da abundancia das graças, de que sois cheia. O Archanjo vos sauda, e vos chama cheia de graça. Todas as Nações vos acclamão por bemaventurada: todas as Jerarquias do Ceo vos bem dizem, e nós, que somos da Jerarquia terreste, tambem agora vos bem dizemos: Deus vos salve, ó cheia de graça, o Senhor é convosco: rogai por nós, ó Mãe de Deus, Senhora nossa, e nossa Rainha.

Virgem Soberana, etc. (

Como a pag. 22.

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VISITA XIX.

Não ha cousa mais suave, que achar-se cada um na companhia do seu maior amigo: e não nos será summamente deleitavel estarmos nós n'este valle de lagrimas em companhia do amigo mais fiel, que temos, que nos póde dar todos os bens, que excessivamente nos ama e que por isso está comnosco continuamente! Alli o temos no SS. Sacramento: alli lhe podemos a toda a hora fallar á nossa vontade, abrindo-lhe o nosso coração, expor-lhe as nossas necessidades, e pedir-lhe as suas graças: nós podemos tratar com o Rei do Céo neste Sacramento com toda a amorosa confiança. Foi bastantemente ditoso José, quando desceo Deus com a sua graça (como attesta a Escriptura) ao carcere onde estava, a consolá-lo; mas muito mais ditosos somos nós em ter sempre comnosco nesta terra de miserias o nosso Deus feito homem, que com a sua Real presença está na nossa companhia todos os dias da nossa vida, com tanto amor e compaixão de nós. Que consolação não é para um pobre encarcerado ter um amigo, que vá repetidas vezes manter-lhe a conversação, que o console, que o soccorra, que lhe dê esperanças, que ponha todo o seu cuidado em livral-o da sua desgraça! Pois eis ali o nosso bom amigo Jesu Christo, que naquelle Sacramento nos fortalece, e nos anima, dizendo-nos: Aqui estou todo por amor de vós vindo de proposito lá do Céo a esta vossa presença para vos consolar, para vos ajudar, e para vos livrar: fallai comigo, uni-vos a mim, que assim não sentireis as vossas miserias, e depois vireis comigo ao meu Reino, onde vos farei summamente bemaventurados.

Oh Deus! Oh amor incomprehensivel! Já que vos dignais de ser tão affavel comnosco, que, por estardes visinho a nós, desceis sebre os nossos altares, eu proponho visitar-vos repetidas vezes: quero gozar, quanto me fôr possivel, da vossa dulcissima presença; daquella presença, que constitue a Bemaventurança do Paraiso. Oh! se eu pudesse estar sempre aqui diante de vós para adorar-vos, e fazer repetidos actos de amor vosso! Reprehendei-me, Senhor, quando por tibieza, ou pelos negocios do mundo, deixar de visitar-vos. Excitai em mim um grande desejo de estar sempre junto de vós nesse Sacramento. Ah, meu amoroso Jesus! Quem vos tivera sempre amado! Mas a minha consolação agora é ver que ainda me resta tempo de assim o fazer, não só na outra vida, mas ainda nesta. Eu assim o quero executar: quero amar-vos devéras, meu summo bem, meu amor, meu thesouro, meu tudo, quero amar-vos com todas as minhas forças.