e effectivamente uma das circumstancias peculiares das tormentas do Cabo é escurecer-se completamente a athmosphera. É tambem notavel a altura que attingem as ondas n'essas occasiões, pois nenhum navegador as viu em parte alguma maiores ou iguaes. Camões notou esta circumstancia na elegia III, onde, descrevendo a sua viagem para a India, diz que
chegando ao Cabo da Esperança Eis a noute com nuvens se escurece, Do ar subitamente foge o dia E todo o largo Oceano se embravece; Em serras todo o mar se convertia.
Voltando aos Lusiadas observaremos que todo o horror do Cabo da Boa Esperança está n'aquella prophecia do Gigante:
Quantas naus esta viagem Fizerem de atrevidas, Inimiga terão esta paragem Com ventos e tormentas desmedidas.
(Lus. V, 43.)
E é assim. Não ha paragem alguma do globo onde as tempestades sejam mais frequentes, podendo-se dizer que no Cabo é estado normal o mau tempo, sendo excepção a bonança. A tempestade
c'um medonho choro Subito d'ante os olhos se apartou, Desfez-se a nuvem negra e c'um sonoro Bramido muito longe o mar soou.
(Lus. V, 60.)
Aqui se observa como um pesado aguaceiro vem abater as ondas encapelladas, ouvindo-se comtudo por muito tempo o surdo rumor que ellas produzem como féras, mau grado seu, subjugadas pelo chicote do domador.
Mais desenvolvida é a descripção da tempestade no Indico. N'esse mar é conhecida a parte que fica entre a cabeça de Madagascar e as Seychelles pelos frequentes cyclones e golpes de vento que a açoutam e tornam perigosa a navegação. E, pois, ahi