recordando assim a direcção successivamente differente do vento, percorrendo todos os quadrantes, como se nota nas tempestades de rotação. Os golphinhos ou toninhas, esses graciosos companheiros do navegador durante a bonança, desapparecem d'aquelle theatro de desolação, e são substituidos pelos maçaricos, as almas do mestre, como lhes chama a poetica imaginação dos marinheiros, que vem augmentar com os seus pios lamentosos a tristeza do espectaculo:

As Halcyoneas aves o triste canto levantaram, Os delfins namorados entretanto Lá nas covas maritimas entraram, Fugindo á tempestade e ventos duros, Que nem no fundo os deixa estar seguros.

(Lus. VI, 77.)

Isto é perfeito, isto é enexcedivel. E comtudo ha mais ainda; ha a descripção de outro phenomeno do mar, que, posta em prosa, occuparia o logar de honra no melhor tratado de meteorologia. É a das trombas marinhas. N'este phenomeno em que as nuvens do mar sorvem as aguas do Oceano, começa a levantar-se

No ar um vaporsinho e subtil fumo, E do vento trazido, rodear-se; D'aqui levado um cano ao polo summo Se via, tão delgado que enxergar-se Dos olhos facilmente não podia; Da materia das nuvens parecia. Hia-se pouco a pouco accrescentando E mais que um largo mastro se engrossava; Aqui se estreita, aqui se alarga, quando Os golpes grandes de agua em si chupava; Estava-se co'as ondas ondeando; Em cima d'elle uma nuvem se espessava, Fazendo-se maior, mais carregada, Co'o cargo grande d'agua em si tomada, Qual roxa sanguesuga se enche e a alarga grandemente, Tal a grande columna, enchendo, augmenta, A si e a nuvem negra que sustenta. Mas, depois que de todo se fartou, O pé que tem no mar a si recolhe, E pelo céu chovendo em fim vôou; Ás ondas torna as ondas que tomou, Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.

(Lus. V, 19 a 22.)

Quem escreveu isto? Foi Bravais? Foi Fitz-Roy? Não; foi Luiz de Camões.

Camões tudo vê, de tudo falla. Ao fogo santelmo chama

lume vivo, Que a maritima gente tem por santa, Em tempo de tormenta e vento esquivo, De tempestade escura,

(Lus. V, 18.)