Espiritos elevados e intelligencias altamente illustradas tem já considerado o nosso Poeta debaixo de alguns d'estes pontos de vista. Parece-nos, comtudo, que ainda se não explorou sufficientemente um dos veios mais ricos d'essa riquissima mina. Tentaremos nós, em rapido esboço, mostrar como na sua palheta de multiplices côres tinha Camões algumas das mais brilhantes e apropriadas para descrever o mar e pintar os homens que n'elle vivem. Procuraremos mostrar como Camões foi um marinheiro, mas um marinheiro de alma e coração divinamente inspirados; procuraremos demonstrar como lhe assenta bem o epitheto de Naval Poet, que lhe deu um escriptor inglez, e teremos assim justificado o titulo que demos a este despretencioso trabalho.

II

Para poder tratar da sciencia e da arte do marinheiro com a provada exatidão e superior proficiencia, que se observam nas suas obras, devia Camões ter tido um longo tirocinio maritimo, pois só com largas viagens sobre o mar poderia elle adquirir esses conhecimentos tão variados.

Se ainda hoje, com tantos tratados e livros ao alcance de todas as intelligencias, é comtudo difficil, a quem não viu o mar e os seus trabalhos, fazer d'elles uma idéa aproximadamente exacta, muito mais acontecia isso no tempo do Poeta, quando a geographia, a astronomia e a nautica eram sciencias, alem de atrasadas, possuidas por poucos, de modo que a maioria das pessoas, ainda mesmo das classes illustradas, faziam de tudo o que dizia respeito á navegação, idéa vaga e por vezes muito afastada da verdade, confundindo-se no seu espirito os verdadeiros perigos do mar com os horrores e medos imaginarios, que eram ainda restos da tradição do Mar Tenebroso. Os escriptores, que não tinham navegado, ao descreverem scenas maritimas, serviam-se de um padrão uniforme, successivamente copiado ou imitado, e em que a natureza muitas vezes tinha pouca parte. E realmente, como poderá descrever com exactidão uma tempestade quem nunca tenha visto alguma? Como poderá descrever com verdade o alvoroço sentido pelo marinheiro ao avistar terra, depois da longa e trabalhosa navegação, aquelle que nunca saiu do remanso da patria e do conchego da familia?

Mas o nosso Poeta foi n'esse ponto mais feliz que nenhum outro, porque navegou e viajou muito, e de si podia dizer o que poz na bôca do Gama:

Os casos vi, que os rudos marinheiros, Que tem por mestra a longa experiencia, Contam por certos sempre e verdadeiros, Julgando as cousas só pela apparencia; E que os que tem juizos mais inteiros, Que só por puro engenho e por sciencia Vêm do mundo os segredos escondidos, Julgam por falsos ou mal entendidos.

(Lus. v, 17.)

Antes, pois, de vermos como o Poeta tratou das cousas do mar, recordemos da sua biographia o que diga respeito ás navegações que fez.

Luiz de Camões embarcou pela primeira vez pelos annos de 1546. Este primeiro embarque parece ter sido um castigo motivado ou pelos seus malfadados amores com D. Catharina d'Athayde ou por qualquer outra causa, talvez um duello dos muitos que lhe originava o seu genio ardente e cavalheiroso, que lhe valeu dos companheiros e quiçá dos emulos a alcunha de Trinca-fortes. Certo é que partiu para Ceuta, e em tão boa ou má hora que, logo n'essa viagem, teve um recontro com corsarios barbarescos, suppondo-se que foi então que perdeu o olho direito.

Voltou de Africa em 1549 em companhia de D. Affonso de Noronha, que tinha sido capitão de Ceuta, e que, chegado a Lisboa, foi nomeado vice-rei da India por D. João III. Vinha o Poeta já com tenção de se alistar para a India, o que fez com effeito em 1550 na nau dos Burgalezes, que pertencia á armada em que D. Affonso de Noronha devia seguir viagem. Não partiu, porém, n'essa occasião, mas sim tres annos depois, a 24 de março de 1553, na armada que levava por capitão-mór Fernão Alvares Cabral. Era tal o seu desejo de partir, ou para deixar a patria onde o perseguiam os desgostos, ou para ver se melhorava de fortuna e podia realisar as aspirações do seu coração, que trocou com outro homem d'armas, e embarcou na capitaina, que era a nau S. Bento.