Quanto a Durande estava decidido que a catastrophe era irremediavel. O patrão do Shealtiel assistira á ultima phase do naufragio. O grandissimo rochedo em que naufragara a Durande, resistira ao choque da tempestade, como se quizesse guardar comsigo o navio; mas de manhã, no momento em que o Shealtiel, verificando que não havia ninguem para salvar affastava-se da Durande, houve um desses movimentos de mar que são como os ultimos arrancos da colera das tempestades. Essa onda levantou furiosamente a Durande, arrancou-a do cachopo, e com a rapidez e a rectidão de uma flexa disparada, atirou-a entre as duas rochas Douvres. Ouvio-se um estalo «diabolico» dizia o patrão. A Durande, levada pela vaga a uma certa altura, metteu-se entre as rochas. Estava outra vez pregada, mas desta vez mais solidamente que no escolho submarino. Ficou ahi deploravelmente suspensa, exposta a todo o vento e a todo mar.
A Durande, no dizer da equipagem do Shealtiel já estava quasi toda despedaçada. Teria sossobrado, com certeza, de noite, se o cachopo não a sustivesse. O patrão do Shealtiel com o seu oculo estudou o casco. Descreveu o desastre com precisão maritima; o lado de estibordo estava roto; os mastros truncados, o velame sem tralhas, as correntes dos ovens quasi todas cortadas, as sangadilhas cortadas o mais rente possivel desde o meio do mastro até acima; o lugar dos viveres arrombado, os cavaletes da chalupa destruidos, a arvore do leme rôta, os cabos despregados, os pavezes arrasados, as abitas levadas pelo vento, a antena do mesmo modo, o cadaste quebrado. Era a devastação frenetica da tempestade. Quanto ao guindaste do carregamento, preso ao mastro de prôa, já não existia, não havia noticia delle, completamente limpo, levaram-n'o os diabos, com todas as roldanas, polés e correntes. A Durande estava deslocada; a agua começava agora a sargal-a. Dentro de alguns dias nada mais restaria della.
E comtudo a machina, cousa notavel, e que provava a sua perfeição, soffreu pouco com a tempestade. O patrão do Shealtiel affirmava que a manivella não teve avaria grave. Os mastros do navio cederam, mas o cano da machina resistio. Os baluartes de ferro do lugar do com mando estavam apenas torcidos; as caixas das rodas soffreram, mas as rodas pareciam não ter um só raio de menos. A machina estava intacta. Era a convicção do patrão do Shealtiel. O machinista Imbrancam, que estava entre os grupos, partilhava esta convicção. Aquelle negro, mais intelligente que muitos brancos, era o admirador da machina. Levantava os braços abrindo os dez dedos das suas mãos negras, e dizia a Lethierry mudo: meu amo, a machina está viva.
O salvamento de Clubin parecia cousa segura; o casco da Durande estava sacrificado; a conversação dos grupos recahio sobre a machina. Interessavam-se por ella, como se fosse uma pessoa. Todos admiravam o bom procedimento da machina.—Solida comadre aquella, dizia um marinheiro francez.—É magnifica! exclamava um pescador guernesiano.—Deve ter sido muito astuciosa, accrescentava o patrão, para escapar apenas com alguns arranhões.
A pouco e pouco tornou-se a machina a preoccupação unica. Animou as opiniões pró e contra. Tinha amigos e inimigos. Mais de um, que tinha algum velho cuter de vela, e esperava apanhar a freguezia da Durande, alegrou-se por vêr o escolho Douvres fazer justiça á nova invenção. O cochicho tornou-se algazarra. Discutia-se com barulho. Era com tudo um rumor discreto, que de quando em quando se calava sob a pressão do silencio sepulcral de Lethierry.
Do colloquio havido em todos os pontos resultava isto:
A machina era o essencial. Refazer o navio era possivel, não a machina. Era unica. Para fabricar outra faltava o dinheiro e o fabricante. Lembram-se que o constructor tinha morrido. Custou quarenta mil francos. Ninguem arriscaria agora aquelle capital naquella eventualidade; tanto mais quando acabava de provar-se que os vapores naufragam como navios de vela; o accidente actual da Durande mettia á pique o seu passado succedimento. E era doloroso pensar que naquelle momento a machina ainda estava em bom estado, e que, antes de cinco ou seis dias, ficaria despedaçada como o navio. Emquanto existia a machina, podia dizer-se que não havia naufragio. Só a perda da machina era irremediavel. Salvar a machina era reparar o desastre.
Salvar a machina, é facil dizel-o. Mas quem ousaria? era acaso possivel? Fazer e executar, são cousas differentes, e a prova é que é facil formular uma aspiração e difficil executal-a. Ora, se houve jámais um sonho impraticavel e insensato era este; salvar a machina encalhada nas Douvres. Mandar trabalhar naquellas rochas um navio e uma equipagem seria absurdo; não se devia pensar nisso. Era a estação dos temporaes: ao primeiro que houvesse, rasgavam-se as correntes das amarras nos pontos submarinhos e o navio despedaçava-se. Era mandar um naufragio em soccorro do primeiro. Na especie de buraco da planura superior onde se abrigára o naufrago legendario morto de fome, mal havia lugar para um homem. Era preciso pois que, para salvar essa machina, fosse um homem aos rochedos Douvres, e que fosse sozinho, só naquelle mar, só naquelle deserto, só a cinco leguas da costa, naquelle medo, só durante semanas inteiras, só diante do previsto e do imprevisto, sem vitualhas nas angustias da privação, sem soccorro nos incidentes da desgraça, sem outro vestigio humano que o do antigo naufrago morto alli, sem outro companheiro além daquelle finado.
E como salvaria elle a machina? Era preciso que fosse, não sómente marujo, senão tambem ferreiro. E quantas difficuldades! O homem que o tentasse seria mais que um heróe. Seria um louco. Porquanto, em certos commettimentos desproporcionados, onde parece necessario o sobrehumano, a bravura tem acima de si a demencia. E com effeito, sacrificar-se por um pouco de ferro não era estravagante? Não, ninguem iria aos rochedos Douvres. Devia-se renunciar á machina do mesmo modo que ao navio. O salvador que era preciso não apparecia. Onde encontrar esse homem?
Isto, dito de outro modo, era o fundo das conversas murmuradas daquella multidão.