Ás nove horas e meia, no Equerrier, um pescador levando a rede, parou algum tempo para ver entre Colombellee Soufleresse alguma cousa que devia ser um barco, e que se expunha muito ao tempo. Ha ventos perigosos nesse lugar. A rocha Soufleresse é assim chamada porque sopra constantemente os barcos que passam.
Ao levantar da lua, estando a maré cheia, e havendo pleno mar no estreito de Li-Hou, o guarda solitario da ilha de Li-Hou, assustou-se ao ver passar entre a lua e elle uma longa forma negra. Esta forma ia resvalando lentamente por cima das especies de paredes que formam os bancos da rocha. O guarda de Li-Hou pensou ver a Dama Negra.
A Dama Branca habita o Tau de Pez d'Amont, a Dama Cinzenta habita o Tau de Pez d'Aval, a Dama Vermelha habita a Lilleuse ao norte do Banc-Marquis, e a Dama Negra habita o Grand-Etacré ao este de Li-Houmet. Ao clarão da lua todas essas damas sahem e encontram-se ás vezes.
Rigorosamente essa forma negra podia ser uma vela. As longas fileiras de rochas sobre as quaes parecia que a vela andava podiam com effeito esconder o casco de um barco vogando a traz de si, deixando ver apenas a vela. Mas o guarda perguntou á si proprio que barco ousaria arriscar-se aquellas horas entre Li-Hou e a Pecheresse, e as Angullieres e Lerée Point. E com que fim? Pareceu-lhe mais provavel que fosse a Dama Negra.
Estando a lua já acima da torre de Saint-Pierre du Bois, o sargento de Rocquaine levantou metade da escada da ponte levadiça, e distinguio na foz da bahia, mais perto que a Sambule, um barco á vela que parecia descer do norte a sul.
Existe na costa sul de Guernesey, atraz do Plainmont, no fundo de uma bahia, toda precipicios e muralhas, cortada a pique na onda, um porto singular que um francez residente na ilha desde 1844, talvez o mesmo que escreve agora estas linhas, baptisou com o nome de porto do quarto andar, nome geralmente adoptado hoje. Esse porto que então se chamava a Moie, é uma planura de rocha meio natural, meio talhada, de quarenta pés de altura acima d'agua, e communicando com as vagas por duas grandes pranchas parallelas em plano inclinado. Os barcos, içados á força de braços por correntes e roldanas, sahem ao mar e descem ao longo dessas pranchas que são dous trilhos. Para os homens ha uma escada. Esse porto era então muito frequentado pelos contrabandistas. Sendo pouco praticavel, era lhes commodo.
Pelas onze horas, alguns trapaceiros, talvez os mesmos com quem Clubin contava, estavam com os seus fardos na Moie. Quem trapaceia, espia; elles espiavam. Admiraram-se de ver uma vela desembocando repentinamente além das linhas negras do Cabo Plainmont. O luar estava claro. Os contrabandistas espreitavam a vela, receiando que fosse algum guarda-costa collocar-se de emboscada atraz do grande Hanois, mas a vela passou os Hanois, deixou atraz de si a noroeste a Boue Blondi, e mergulhou-se ao largo nas brumas lividas do horisonte.
Onde diabo vai aquella barca? disseram os contrabandistas?
Na mesma noite, pouco depois de pôr o sol, ouvio-se alguem bater na porta da casa mal assombrada em que morava Gilliatt. Era um rapaz vestido de escuro, com meias amarellas, o que indicava ser sacristão. A casa estava fechada, porta e postigos. Uma velha pescadora de fructas do mar, passeando pelo banco, com uma lanterna na mão, chamou o rapaz, e trocaram-se estas palavras entre elles:
—Que quer você?