Fosse o que fosse, como marcou, Gilliatt podia prestar serviços. Em uma sexta-feira maior, á meia noite, dia e hora usados para esses curativos, todos os escrophulosos da ilha, por inspiração, ou combinação, foram em massa á casa mal assombrada, e com as mãos postas, pediram a Gilliatt que os curasse. Gilliatt recusou. Reconheceu-se nisto a sua perversidade.


[VI]

A PANÇA

Tal era Gilliatt.

As raparigas achavam-n'o feio.

Gilliatt não era feio. Era talvez bonito. Tinha um perfil semelhante ao do barbaro antigo. Quieto, parecia um Dacio da columna trajana. As orelhas eram pequenas, delicadas, lisas, de uma admiravel forma acustica. Tinha entre os olhos a soberba ruga vertical do homem audacioso e perseverante. Cahiam-lhe os dous cantos da boca; a testa era de uma curva nobre e serena; o olhar sahia-lhe firme de dentro da palpebra franca, posto que elle tivesse aquelle piscar d'olhos que os pescadores adquirem com a reverberação das vagas. O riso era pueril e delicioso. Não havia marfim mais alvo que os seus dentes. Entretanto, Gilliatt, tisnado pelo sol, era quasi negro. Não se affronta impunemente o oceano, a tempestade e a noite; aos trinta annos, mostrava quarenta e cinco. Tinha a sombria mascara do vento e do mar.

Puzeram-lhe a alcunha de Finorio.

Diz uma fabula da India: Um dia Brahma perguntou á Força: quem é mais forte que tu? A Força respondeu: É a Astucia. Diz um proverbio chinez: Quanto não poderia o leão, se fosse macaco?

Gilliatt não era nem leão nem macaco; mas as cousas que elle fazia apoiavam o proverbio chinez e a fabula indiana. De estatura commum e força ordinaria, Gilliatt, tão inventiva e poderosa era a sua destreza, conseguia levantar fardos de gigante e realizar prodigios de athleta.