A agua era magicamente limpida, e Gilliatt distinguia, em profundezas diversas, estações immersas, superficie de rochas de um verde carregado a mais e mais. Certas cavas obscuras eram provavelmente insondaveis.
Dos dous lados do portico sub-marinho, esboços de cimbrios abatidos, cheios de trevas, indicavam pequenas cavas lateraes, pontos inferiores da caverna central, accessiveis talvez na época das marés extremamente baixas.
Essas anfractuosidades tinham tectos em plano inclinado, em angulos mais ou menos abertos. Pequenas plagas, descobertas pelas excavações do mar, mergulhavam-se e perdiam-se debaixo dessas obliquidades.
Longas hervas expessas, de mais de uma toeza, ondulavam debaixo d'agua como um balancear de cabellos ao vento. Entreviam-se florestas de sargaço.
Fóra d'agua, e dentro d'agua, toda a muralha da cava, de alto abaixo, desde a abobada até ao desapparecimento no invisivel, era tapetada dessas prodigiosas florescencias do oceano, tão raramente viaveis ao olho humano, que os velhos navegadores hespanhóes, chamaram praderias del mar. Expesso musgo, com todos os matizes da azeitona, escondia e ampliava as exostosis de granito. De todos os declives rompiam os delgados lóros lavrados do sargaço com que os pescadores fazem barometros. O halito obscuro da caverna agitava essas correas luzentes.
Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo, as mais raras joias do escrinio do oceano, os marfins, as mitras, os elmos, as purpuras, os buzios, os strultiolarios, as conchas univalvulas. As campanas de lapas, semelhantes a barracas microscopicas, adheriam ao rochedo e grupavam-se em aldèas, em cujas ruas rolavam as multivalvulas, esses escarabeos da vaga. Não podendo os seixos de marisco entrar facilmente nessa grota, ahi se refugiavam as conchas. As conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam o rude e incivil contacto do populacho das pedras. A fulgida reunião das conchas fazia debaixo d'agua, em certos lugares, ineffaveis irradiações atravez das quaes entrevia-se um grupo de azues e vermelhos, e todos os reflexos da agua.
Na parede da caverna, um pouco ácima da linha de flutuação da maré, uma planta magnifica e singular, prendia-se como um debrum á tapeçaria do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta, inextrincavelmente dobrada, e quasi negra, offerecia ao olhar largas toalhas embaraçadas e obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas florinhas côr de lapiz lazuli. Na agua parecia que essas flôres accendiam-se, e cuidava-se vêr brazas azues. Fóra da agua eram flôres, dentro da agua eram saphyras, de modo que a onda, subindo e innundando o esvazamenlo da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de carbunculos.
A cada enchimento da vaga tumida como um pulmão, essas flôres banhadas, resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melancolica semelhança com o destino. Era a aspiração, que é a vida; era a expiração que é a morte.
Uma das maravilhas daquella caverna era a rocha. Essa tocha, ora muralha, ora cymbrio, ora pilastra, era em alguns lugares bruta e nua, em outros trabalhada pelos mais delicados lavores naturaes. Um não sei quê, aliás de espirito, misturava-se á estupidez massiça da pedra. Que artista não é o abysmo! Tal pedaço de parede, cortado em quadro e cheio de altos e baixos, representando attitudes, figurava um vago baixo-relevo; ante essa esculptura, em que havia um tanto de nuvem, podia-se sonhar com Prometteo esboçando para Miguel Angelo. Parecia que com alguns toques de cinzel o genio poderia acabar o que o gigante começara. Em outros lugares a rocha era embutida como um broquel sarraceno ou traçada como uma florentina. Tinham almofadas que pareciam bronze de Corintho, arabescos como uma porta de mesquita; como uma pedra runica tinha signaes de unha obscuros e improvaveis. Plantas com ramos torcidos em forma do verruma, cruzando-se no dourado do musgo, cobriam-na filagranas. Era um antro e uma alhambra. Era o encontro da selvageria e da ourivesaria na augusta e disforme architectura do acaso.
O magnifico bolor do mar avelludava os angulos do granito. As pedras estavam adornadas de lianas grandi-flôres, tão destras que não cahiam, e pareciam intelligentes tão bem adornavam ellas.