Gilliatt, naquelle trabalho multiplo, gastava todas as suas forças; difficilmente as refazia.

Privações de uma parte, cançasso de outra, Gilliatt tinha emmagrecido. Cresceram-lhe as barbas e cabellos. Excepto uma camisa, todas as mais estavam em frangalhos. Tinha os pés nús, por que o vento levára-lhe um sapato, e o mar o outro. Pedaços da bigorna rudimentaria, e mui perigosa, de que se servia, tinham-lhe feito nas mãos e nos braços pequenas chagas, salpicos de trabalho. Essas chagas, mais esfoladuras que feridas, eram superficiaes, mas irritadas pelo ar vivo e pela agua salgada.

Tinha fome, tinha sede, tinha frio.

O pichel de agua doce estava vasio. A farinha de centeio fôra já comida ou empregada no trabalho. Restava-lhe um pouco de biscouto.

Não tendo agua para molhal-o, Gilliatt quebrava-o com os dentes.

Dia a dia iam-lhe escasseando as forças.

Aquelle temivel rochedo esgotava-lhe a vida.

Beber, era uma questão; comer, era uma questão; dormir, era uma questão.

Gilliatt comia quando apanhava algum marisco ou outro bichinho do mar; bebia quando via um passaro descer a alguma ponta da rocha. Trepava então e achava n'uma cava um pouco de agua doce. Bebia depois do passaro, ás vezes ao mesmo tempo; porque as gaivotas já estavam acostumadas a elle, e não fugiam quando elle se approximava. Gilliatt, mesmo na maior fome não lhes fazia mal. Sabemos que elle tinha a superstição dos passaros. Os passaros, como os cabellos de Gilliatt estivessem eriçados e horriveis, e a barba longa, já lhe não cobravam medo; a mudança do aspecto tranquillisava-os; já não viam naquillo um homem, acreditavam-n'o bicho.

Os passaros e Gilliatt eram agora bons amigos. Todos aquelles pobres ajudavam-se uns aos outros. Emquanto Gilliatt teve centeio, deu-lhes algumas migalhas dos bolos que fazia; agora os passaros indicavam-lhe em que lugar havia agua.