Gilliatt tinha esgotado as provisões, as ferramentas já estavam usadas, a sede e a fome de dia, o frio de noite, feridas e andrajos, vestidos rotos cobrindo suppurações, buracos nas roupas e na carne, mãos dilaceradas; pés sangrentos, membros magros, rosto livido, uma flamma nos olhos.

Flamma soberba essa, era a vontade visivel. O olho do homem é feito de modo que se lhe vê por elle a virtude. A nossa pupilla diz que quantidade de homens ha dentro de nós. Affirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciencias piscam o olho, as grandes lançam raios. Se não ha nada que brilhe debaixo da palpebra, é que nada ha que pense no cerebro, é que nada ha que ame no coração. Quem ama quer, e aquelle que quer relampeja e scintilla. A resolução enche os olhos de fogo; admiravel fogo que se compõe da combustão dos pensamentos timidos.

Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quasi todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra:—Perseverando. A perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpetua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céo o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo; no primeiro caso, é Colombo, no segundo caso, é Jesus. Insensata é a cruz; vem dahi a sua gloria. Não deixar discutir a consciencia, nem desarmar a vontade, é assim que se obtem o soffrimento e o triumpho. Na ordem dos factos moraes o cahir não exclue o pairar. Da queda sabe a ascenção. Os mediocres deixam-se perder pelo obstaculo especioso; não assim os fortes. Parecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza delles. Pódes dar a Estevão todas as boas razões para que elle não se faça apedrejar. O desdem das objecções razoaveis crêa a sublime victoria vencida que se chama o martyrio.

Todos os esforços de Gilliatt pareciam agarrados ao impossivel, o exito era mesquinho ou lento, e cumpria gastar muito para obter pouco; isso é que o fazia magnanimo, isso é que o fazia pathetico.

Que para fazer um andaime de quatro pranchas acima de um navio naufragado, para cortar nesse navio a parte que se podia salvar, para ajustar a esse resto dos restos quatro guindastes com os seus cabos, fossem precisos tantos preparativos, tantos trabalhos, tantas apalpadellas, tantas noites mal dormidas, tantos dias afadigados, essa era a miseria do trabalho solitario. Fatalidade na causa, necessidade no effeito. Gilliatt fez mais do que aceitar essa miseria; quil-a. Temendo um concurrente, porque um concurrente poderia ser um rival, não procurou auxiliar. A esmagadora empreza, o risco, o perigo, o trabalho multiplicado por si mesmo, o engolimento possivel do salvador no salvamento, a fome, a febre, a nudez, o abandono, tudo isso tomou elle para si só. Teve este egoismo.

Gilliatt estava debaixo de uma especie de machina pneumatica. A vitalidade ia-se retirando delle a pouco e pouco. E elle mal o sentia.

A perda das forças não esgota a vontade. Crer é apenas a segunda potencia; a primeira é querer; as montanhas proverbiaes que a fé transporta nada valem ao lado do que a vontade produz. O que Gilliatt perdia em vigor, rehavia em tenacidade. A diminuição do homem physico debaixo da acção repellente daquella natureza selvagem produzia o engrandecimento do homem moral.

Gilliatt não sentia a fadiga, ou para melhor dizer, não consentia nella. O consentimento da alma recusado ao desfalecimento do corpo é uma força immensa.

Gilliatt via os progressos do trabalho, e não via nada mais. Era miseravel sem sabel-o. O seu alvo, que elle tocava quasi, allucinava-o, soffria todos os soffrimentos sem ter outra idéa que não fosse esta: Avante! A sua obra subia-lhe á cabeça. Vontade embriagada. O homem póde embriagar-se com a propria alma. Essa embriaguez chama-se heroismo.

Gilliatt era uma especie de Job do Oceano.