Gilliatt desceu á pança e aproveitou os relampagos para examinal-a. Era tempo que a pobre barquinha fosse soccorrida; tinha sido muito sacudida e começava a arquear. Gilliatt, com aquelle olhar summario, não vio nenhuma avaria. Comtudo, era certo que ella devia ter recebido violentos choques. Acalmada a agua, endireitou o casco; as ancoras portaram-se bem; quanto á machina, as quatro correntes mantiveram-n'a admiravelmente.

Quando Gilliatt acabava a revista, uma cousa branca passou por elle e margulhou na sombra. Era uma gaivota.

Não ha melhor apparição nas tempestades. Quando os passaros chegam, é que a tempestade vae-se embora.

Outro signal excellente, o trovão redobrava.

As supremas violencias da tempestade desorganisam-n'a. Todos os marinheiros o sabem, a ultima prova é rude, mas curta. O excesso do raio annuncia-lhe o fim.

A chuva parou repentinamente. Depois houve apenas um ruido nas nuvens. O temporal cessou como uma prancha que cahe no chão. Quebrou-se por assim dizer. Desfez-se a immensa machina das nuvens. Uma fenda de céo claro disjungio as trevas. Gilliatt ficou espantado; era dia claro.

A tempestade durára quasi vinte horas.

O vento que a trouxera levou-a. Um desabamento de escuridão depressa encheu o horisonte. As brumas rotas e fugitivas amontoaram-se em tumulto, houve de uma ponta á outra da linha do horisonte um movimento de retirada, ouvio-se um longo rumor decrescente, cahiram algumas gotas ultimas de chuva, e toda aquella sombra cheia de trovões foi-se como uma turba de carros terriveis.

Bruscamente fez-se azul o céo.