As oito antenas largas na origem, vão estreitando-se e terminam como agulhas: debaixo de cada uma dellas alongam-se parallelamente duas filas de pustulas decrescentes, as grossas perto da cabeça, as pequenas na ponta, e cada fila tem vinte e cinco. Ha cincoenta pustulas em cada antenna, e todo o animal tem quatrocentas. Essas pustulas são ventosas.

As ventosas são cartilagens cilyndricas e lividas. Na grande especie vão diminuindo de diametro—desde uma moeda de cinco francos até á grossura de uma lentilha. Esses pedaços de tubos sahem e entram no animal. Podem metter-se no corpo de um homem mais de uma pollegada.

Este apparelho de sucção tem a delicadeza de um teclado. Levanta-se, esconde-se. Obedece á menor intensão do animal. As sensibilidades mais delicadas não igualam á contractibilidade dessas ventosas, sempre proporcionadas aos movimentos internos do bicho e aos incidentes externos. Este dragão é uma sensitiva.

Este monstro é aquelle que os marinheiros chamam polvo, que a sciencia chama cephalopode, e a que a legenda chama kraken. Os marinheiros inglezes chamam-no devil-fish, o peixe diabo. Chamam-no tambem blood-sucker, chupador de sangue. Nas ilhas da Mancha chamam-na pieuvre.

É muito rara em Guernesey, muito pequena em Jersey, muito grande e frequente em Serk.

Uma estampa da edição de Buffon por Sonnini representa um cephalopode estreitanto uma fragata. Dionizio Monfort pensa que na verdade o polvo das altas latitudes póde metter um navio a pique. Bory Saint-Vincent nega-o, mas attesta que nas nossas regiões o polvo attaca o homem. Quem for a Serk verá perto de Brecq-Hou o buraco do rochedo onde uma pieuvre ha annos agarrou, reteve e affogou um pescador de lagostas. Peron e Lamarck, enganam-se quando duvidam que o polvo não tendo barbatanas possa nadar. Aquelle que escreve estas linhas, vio com seus proprios olhos em Serk, na cova das Lojas, uma pieuvre perseguir a nado um homem que tomava banho. Foi morta e medida; tinha quatro pés inglezes de largura e pôde-se contar quatrocentos chupadores. O bicho agonisante atirava-os para longe de si convulsamente.

Segundo Dionizio Montfort, um desses observadores, cuja alta intuição faz descer ou subir até o magismo, o polvo tem quasi as paixões de homem; o polvo odeia. E no absoluto ser hediondo é odiar.

O disforme debate-se debaixo de uma necessidade de eliminação que o torna hostil.

A pieuvre nadando conserva-se por assim dizer na bainha. Nada com as antennas fechadas. Imaginem uma manga cozida com um punho dentro. Esso punho, que é a cabeça, impelle o liquido e avança com um vago movimento ondulatorio; os dous olhos, embora grandes, são pouco distinctos por serem da côr da agua.