HA LUGAR PARA ALOJAR-SE A MORTE NO INTERVALLO QUE SEPARA SEIS POLLEGADAS DE DOUS PÉS

Gilliatt metteu outra vez a caixinha no cinto, e poz o cinto na algibeira da calça.

Deixou o esqueleto aos carangueijos com a pieuvre morta ao pé.

Emquanto Gilliat esteve com a pieuvre e o esqueleto, a maré enchente tinha tapado o bocal da entrada. Gilliatt só pôde sahir mergulhando por baixo do arco. Foi-lhe facil; conhecia a sahida, e era mestre nessas gymnasticas do mar.

Advinha-se o drama que se passára alli dez semanas antes. Um monstro agarrára o outro. A pieuvre agarrára Clubin.

Foi isso, na sombra inexoravel, o que se poderia chamar o encontro das hypocrisias. Houve no fundo do abysmo, um embate dessas duas existencias feitas de emboscada e de trevas, e uma, que era a besta, executou a outra, que era a alma. Sinistras justiças.

O carangueijo alimenta-se da carne morta, a pieuvre alimenta-se de carangueijos. A pieuvre apanha um animal que nada, uma lontra, um cão, um homem se póde, bebe-lhe o sangue, e deixa no fundo d'agua o corpo morto. Os carangueijos são os escaravelhos necrophoros do mar. Attrahe-os a carne putrida; elles approximam-se, comem o cadaver; a pieuvre os come depois. As cousas mortas desapparecem no carangueijo, o carangueijo desapparece na pieuvre. Já indicamos esta lei.

Clubin foi o engodo da pieuvre.

A pieuvre reteve-o e affogou-o; os carangueijos o devoraram. Alguma vaga o levou para aquella cava, no fundo da anfractuosidade onde Gilliatt o achou.

Gilliatt voltou, procurando nos rochedos outra cousa que não fosse carangueijos. Parecer-lhe-hia comer carne humana.