Procurar o buraco, antes de tudo. Era o mais urgente.

Gilliatt poz mãos á obra, sem mesmo dar-se tempo de vestir, e todo tremulo. Já não sentia fome, nem frio.

A pança continuava a encher. Felizmente não havia vento. O menor abalo da onda metteria a pança a pique.

A lua desapparecera.

Gilliatt, ás apalpadelas, curvado, mergulhado mais de metade na agua, levou muito tempo na pesquisa. Afinal encontrou a avaria.

Durante a tempestade, no momento critico em que a pança se arqueára, robusta barca tinha batido violentamente contra o rochedo. Um dos relevos da pequena Douvre fizera-lhe uma fractura no casco, a estibordo.

Este buraco estava infelizmente, podia-se quasi dizer perfidamente, situado perto do ponto do encontro das duas porcas, o que, junto ao aturdimento da tempestade, impedira Gilliatt, na revista obscura e rapida que fizera, com o temporal, de descobrir o estrago.

A fractura assustava, porque era larga, e tranquillisava porque, embora immersa neste momento pela enchente interna da agua, ficava acima do lume d'agua.

No momento em que rompeu o buraco, a vaga era loucamente sacudida no estreito, e já não havia nivel de fluctuação, a onda penetrára pela effracção na pança; a pança com mais essa carga mergulhou algumas polegadas, e, mesmo depois do apaziguamento das vagas, o peso do liquido filtrado, fazendo levantar a linha de fluctuação, manteve o buraco debaixo d'agua. Dahi vinha a imminencia do perigo. A cheia augmentára de seis pollegadas a vinte. Mas conseguindo tapar o buraco, podia-se esvasiar a pança; esvasiada a pança, voltaria á fluctuação normal, a fractura sahiria d'agua, e a secco, a reparação seria facil, ou ao menos possivel. Gilliatt, como dissemos, tinha ainda a ferramenta de carpinteria em bom estado.

Mas quantas incertezas antes de chegar a isso! Quantos perigos! Quantas más probabilidades! Gilliatt ouvia a agua correr inexoravelmente. Um empuchão e tudo iria a pique. Que desgraça! Talvez já não fosse tempo.