[I]

O ANGRAZINHA PROXIMA DA IGREJA

Saint-Sampson não póde estar apinhado de gente sem que Saint-Pierre Port fique deserto. Uma cousa curiosa n'um ponto dado é uma bomba aspirante. As noticias correm depressa nas terras pequenas; ir ver o cano da Durande debaixo da janella de mess Lethierry foi desde o romper do dia a grande occupação de Guernesey. Qualquer outro acontecimento desapparecia diante desse. Eclypse da morte do decano de Saint-Asaph; já ninguem curava do reverendo Ebeneser Caudray, nem da sua repentina riqueza, nem da sua partida no Cashmere. A machina da Durande trazida das Douvres estava na ordem do dia. Ninguem acreditava. O naufragio parecera extraordinario, mas o salvamento parecia impossivel. Todos queriam ver com os seus proprios olhos. Todas as occupações ficaram suspensas. Longas fileiras de burguezes em familia, desde o vesin até o mess, homens, mulheres, gentlemen, mais com filhos e filhos com bonecas, dirigiam-se por todas as estradas para ver a cousa, em Bravées, e davam-se as costas a Saint-Pierre Port. Muitas lojas de Saint-Pierre Port estavam fechadas; no Commercial Arcade, estagnação absoluta de venda e de negocio; toda a attenção estava voltada para a Durande; nenhum mercador estreou, excepto um ourives que se maravilhava de ter vendido um anel de ouro para casamento—«a uma especie de homem que parecia muito appressado e que lhe perguntou onde morava o Sr. decano.» As lojas que ficaram abertas eram os lugares de conversa onde se commentava ruidosamente o milagroso salvamento da machina. Ninguem passeava na Hyvresse, que se chama hoje, não se sabe por que, Cambridge-Park; ninguem em High-Street, que se chamava então a Rua Grande, nem era Smith Street, que se chamava a Rua das Forjas; ninguem em Hauteville; a propria Esplanada estava deserta. Dissera-se um domingo. Uma alteza real, que alli fosse de visita, e passasse em revista a milicia de Ancrese não despovoaria melhor a cidade. Todo aquelle abalo a proposito de uma cousa á tôa como Gilliatt fazia erguer os hombros aos homens graves e ás pessoas correctas.

A igreja de Saint-Pierre Port, triplice carreta sobreposta com trancepto e flecha, fica situada á beira da praia no fundo do porto quasi sobre o desembarque. Dá a saudação aos que chegam e o adeus aos que sabem. Aquella igreja é a maiuscula de uma longa linha que faz a fachada da cidade sobre o oceano.

É ao mesmo tempo a parochia de Saint-Pierre Port o chefe de toda a ilha. Tem por parocho o subrogado do bispo, clergyman com plenos poderes.

O ancoradouro de Saint-Pierre Port, hoje largo e magnifico porto, era naquella época, e ainda ha dez annos, menos consideravel que o ancoradouro de Saint-Sampson. Eram duas grossas paredes cyclopicas curvas partindo da praia a estibordo e bombordo e ligando-se quasi na extremidade, onde havia um pharolsinho branco. Debaixo daquelle pharol uma garganta, que ainda tinha as duas argolas da corrente que a fechava na idade média, dava passagem aos navios. Imaginem uma unha de lagosta aberta, era o ancoradouro de Saint-Pierre Port. Aquella tenaz tomava ao mar um pouco de agua que obrigava a ficar tranquilla. Mas com vento d'Este, havia marulho na entrada, o porto ficava agitado, e era acertado não penetrar lá. Foi o que fez nesse dia o Cashmere, que ficou fóra.

Os navios, quando soprava o Este, faziam isso que, no fim das contas, economisava as despezas do porto. Nesses casos, os bateleiros da cidade, tribu valente de marinheiros que o novo porto destituira, iam tomar em seus barcos os viajantes, ou no cáes, ou nas estações da praia, e os transportavam, a elles e ás bagagens, muitas vezes com marés agitadas e sempre sem accidente, aos navios que deviam sahir. O vento d'Este é um vento de flanco muito bom para ir á Inglaterra; o mar é agitado sem que o navio estremeça.

Quando o navio ficava no porto, todos embarcavam no porto; quando estava fóra, podia-se escolher uma das costas visinhas do ancoradouro do navio. Achava-se em todas as angras bateleiros á vontade.

A Angrazinha era dessas. Aquelle cáes ficava proximo á cidade, mas tão solitario, que parecia longe. Devia a solidão ás duas grandes penedias do forte de S. Jorge que dominavam aquelle sitio discreto. Chegava-se á Angrazinha por caminhos diversos. O mais directo ia pela praia; tinha a vantagem de ir dar á cidade e á igreja em cinco minutos, e o inconveniente de ser coberto pela maré duas vezes por dia.