Ebeneser olhou de novo para Gilliatt. Ha almas que se entendem. Ebeneser sentia naquillo uma fraude; e não teve força, não teve mesmo idéa, de denuncial-a. Ou fosse obediencia a um heroismo latente que elle antevia, ou fosse que se lhe aturdisse a consciencia pela ventura subita, Ebeneser não teve palavras.

O decano tomou a penna e encheu, com auxilio do lançador dos assentos, os claros da pagina escripta no livro, depois levantou-se, e com o gesto, convidou Ebeneser e Deruchette, a aproximar-se da mesa.

Começou a ceremonia.

Ebeneser e Deruchette estavam ao pé um do outro diante do ministro. Quem tiver sonhado que se está casando saberá o que elles sentiam.

Gilliatt estava a alguma distancia na obscuridade dos pillares.

Deruchette ao levantar-se da cama, desesperada, pensando no tumulo e no sudario, vestira-se de branco. Esta idéa de morte veio a proposito para as nupcias. O vestido branco fez della uma noiva. Tambem os tumulos são esponsaes.

Deruchette irradiava. Nunca foi o que era naquelle instante. Deruchette tinha o defeito de ser demasiado linda e não bastante formosa. A sua belleza peccava, se é peccar, por excesso de graça. Deruchette em repouso, isto é, fóra da paixão e da dôr, já o dissemos, era sobretudo gentil. A transfiguração da moça encantadora é a virgem ideal. Deruchette, engrandecida pelo amor e pelo soffrimento, tinha tido esse progresso, deixem passar a palavra. Tinha a mesma candura, com mais dignidade, a mesma frescura com mais perfume. Era uma especie de bonina que se torna lyrio.

Tinha no rosto signaes de lagrimas estanques. Havia ainda talvez uma lagrima no canto do sorriso. As lagrimas estanques, vagamente visiveis, são um sombrio e doce ornato da felicidade.

O decano, de pé perto da mesa, poz um dedo na Biblia aberta e perguntou em voz alta: