Uma das cousas, que mais recommendaram o Sr. Clubin a mess Lethierry, foi que, conhecendo ou penetrando Rantaine, assignalou a mess Lethierry a improbidade daquelle homem, e disse-lhe:—Rantaine ha de roubal-o. Verificou-se a profecia. Mais de uma vez, em negocios pouco importantes, é verdade, mess Lethierry experimentou a escrupulosa honestidade do Sr. Clubin e descançava nelle. Mess Lethierry dizia: Consciencia quer confiança.
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NARRATIVAS DE VIAGENS DE LONGO CURSO
Mess Lethierry, que se não accomodava de outro modo, vestia sempre a sua roupa de bordo, preferindo mesmo a japona de marinheiro, á japona de piloto. Deruchette torcia o nariz por isso. Nada é tão bello como uma caretazinha da formosura em colera. Deruchette ralhava e ria—Bom paisinho, dizia ella, está cheirando a alcatrão. E dava uma palmadinha na larga espadua do marinheiro.
Aquelle velho heróe do mar trouxe das suas viagens, narrativas maravilhosas. Vio em Madagascar plumas de passaro das quaes bastavam tres para cobrir uma asa. Vio na India hastes de azedinhas, de nove pés de altura. Vio na Nova Hollanda bandos de perús e de patos dirigidos e guardados por um cão de pastor, que naquella terra é um passaro, e chama-se galinha silvestre. Vio cemiterios de elephantes. Vio em Africa uma especie de homens-tigres de sete pés de altura. Conhecia os costumes de todos os macacos, desde o macaco bravo até o macaco barbado. No Chile vio uma bugia commover os caçadores apresentando-lhes o filho.
Vio na California um tronco de arvore ouco, no interior do qual um homem a cavallo podia andar cento e cincoenta passos. Vio em Marrocos os mozabitas e os biskris baterem-se com matraks e barras de ferro, os biskris por terem sido tratados de kelb, que quer dizer cães, e os mozabitas por terem sido tratados de khamsi, que quer dizer gente da quinta seita. Vio na China cortar em pedacinhos o pirata Chanh-thong-quan-harh-Quoi, por ter assassinado o Ap de uma aldêa. Ern Thudanmot, vio um leão arrebatar uma mulher velha do meio do mercado da cidade. Assistio á chegada da grande cobra mandada de Cantão a Saigon, para celebrar na pagode de Cho-len, a festa de Quan-nam, deosa dos navegantes. Contemplou na terra dos Moi, o grande Quan-Su.
No Rio de Janeiro, vio as senhoras brasileiras collocarem nos cabellos pequenas bollas de gaze contendo cada uma dellas um vagalume, o que lhes fazia uma coifa de estrellas. Destruio no Uruguay os formigueiros, e no Paraguay um certo bichinho, que occupa com as patas um diametro de um terço de vara, e ataca o homem, por meio dos proprios pellos, que lhe atira em cima, e que se cravam na carne produzindo pustulas. No rio Arinos, affluente do Tocantins, nas mattas virgens do norte da Diamantina, verificou a existencia do terrivel povo-morcego, os morcilagos, homens que nascem com os cabellos brancos e os olhos vermelhos, habitam os bosques sombrios, dormem de dia, accordam de noite, e pescam e caçam nas trevas, vendo melhor de que quando ha lua.
Perto de Beirouth, no acampamento de uma expedição de que fazia parte, foi roubado de uma tenda um pluviometro; então um feiticeiro vestido de duas ou tres fachas de couro, assemelhando-se a um homem vestido com os proprios suspensorios, agitou tão furiosamente uma campainha na ponta de um chifre que appareceu logo uma hyena trazendo o pluviometro. A hyena é que o tinha roubado.
Estas historias verdadeiras, assemelhavam-se tanto a historias da carochinha que divertiam Deruchette.