Affeiçoára-se aos catholicos e procurava frequental-os, o que leva a crer que o diabo é antes catholico que protestante.

Uma de suas mais insupportaveis liberdades era visitar á noite os leitos conjugaes catholicos, quando os maridos dormiam de todo, e as mulheres, a meio. Disto resultavam equivocos. Patouillet pensava que Voltaire nascera assim. Não é inverosimil. É caso perfeitamente conhecido e descripto nos formularios de exorcismo sob o titulo de erroribus nocturnis et de semine diabolorum.

O diabo fez violencias destas especialmente em Saint-Hélier, em fins do seculo passado: é provavel que para punição dos crimes da revolução. As consequencias dos excessos revolucionarios são incalculaveis. Fosse como fosse, essa apparição possivel do demonio durante a noite, quando reina a escuridão e todos dormem, inquietava muitas mulheres orthodoxas. Dar nascimento a um Voltaire não é cousa agradavel. Uma dellas, assustada, foi consultar o confessor sobre a maneira de desfazer-se em tempo o quiproquo. O confessor respondeu: para saber se está com o diabo ou com seu marido, apalpe-lhe a cabeça e se encontrar pontas, pode estar certa....—de que? perguntou a mulher.

A casa em que morava Gilliatt tinha sido mal assombrada e já não era; portanto, tornava-se mais suspeita; é sabido que, quando um feiticeiro vem habitar uma casa visitada pelo diabo, este, julgando-a bem guardada, tem a delicadeza de não voltar, salvo o caso de ser chamado, como medico.

Chamava-se a casa 0 tutú da rua. Era situada na ponta de uma lingua de terra ou antes de rochedo, que formava uma pequena angra de bastante profundidade na enseada de Houmet Paradis. A casa estava sósinha nessa ponta, quasi fora da ilha, tendo apenas a terra sufficiente para um pequeno jardim ás vezes inundado por occasião das aguas vivas.

Entre o porto de Saint-Sampson e a enseada de Houmet Paradis ha uma grande coluna, sobre a qual levanta-se um amontoado de torres e de hera chamado o castello do Valle ou do Archanjo, de sorte que de Saint-Sampson não se via o tutú da rua.

Não são raros os feiticeiros em Guernesey. Exercem a profissão em certas parochias, apezar de vivermos no seculo dezenove. Praticam acções verdadeiramente criminosas. Fazem ferver ouro. Colhem hervas á meia noite. Olham de travez para o gado. Consultam-n'os; elles mandam buscar em garrafas a agua dos doentes, e dizem em voz baixa: a agua parece bem triste. Affirmou um feiticeiro em Março de 1857, que na agua de um doente havia sete diabos. São temidos e temiveis. Ha pouco tempo um delles enfeitiçou um padeiro e mais o forno. Outro tem a perversidade de fechar e lacrar uma porção de sobrecartas, sem haver nada dentro. Outro chega ao ponto de ter em casa, em cima de uma taboa, tres garrafas com um B em cada uma. Estes factos monstruosos são conhecidos. Alguns feiticeiros são complacentes, e por dous ou tres guinéos incumbem-se de soffrer as nossas molestias. Rolam e gritam em cima da cama. Enquanto elles se estorcem diz o doente: «E esta! já estou bom!» Outros curam todas as molestias amarrando um lenço ao redor do corpo do doente. É um remedio tão simples que admira não se ter ainda ninguem lembrado delle.

No seculo passado o tribunal real de Guernesey collocava-os sobre uma porção de achas de lenha e queimava-os vivos. Presentemente condemna-os a oito semanas de prisão, quatro a pão e agua e quatro no segredo, alternando. Amant alterna catenœ.

A ultima queima de feiticeiros em Guernesey foi em 1747, sendo theatro do espectaculo a praça de Bordage, que de 1565 a 1700 vio queimarem-se onze feiticeiros. Em geral esses culpados confessavam seus crimes: eram para isso ajudados pela tortura.

A praça de Bordage prestou serviços á sociedade e á religião. Queimaram-se ahi os hereticos. No tempo de Maria Tudor, entre outros huguenotes, queimou-se uma mãe e duas filhas: a mãe chamava-se Perrotine Massy. Uma das filhas estava gravida e teve o successo sobre o brazeiro.