Pouco mais ou menos naquelle dia de sabbado em que o Sr. Clubin esteve em Torteval, deu-se um facto singular, pouco assoalhado em principio e que só transpirou muito depois. Como dissemos, ha muitas cousas que ficam desconhecidas, mesmo por causa do medo que inspira ás suas proprias testemunhas.
Na noite de sabbado ao domingo, (precisamos o dia e cremol-o exacto) tres meninos escalaram o rochedo de Plainmont. Voltavam á villa. Vinham do mar. Eram o que na lingua local chamam deniquoi-oiseaux; lêa-se deniche-oiseaux (furta-ninhos). Onde quer que haja penhascos na praia e fendas de rochedos acima do mar ha furta-ninhos em abundancia. Já fallamos delles. O leitor lembra-se que Gilliatt preoccupava-se com isto, por causa dos passaros e por causa das crianças.
Os furta-ninhos, são especies de gaiatos do occeano, pouco timidos.
A noite era escura. Espessas superposições de nuvens escondiam o zenith. Tres horas da manhã soavam no sino de Torteval que é redondo e pontudo, semelhante a um chapéo de magico.
Porque voltavam tão tarde aquelles pequenos? Nada mais simples. Tinham ido á caça dos ninhos de cotovias no Tas de Pois d'Aval. Como a estação tinha sido amena, começaram cedo os amores dos passaros. Os pequenos, espreitando os machos e as femeas á roda dos ninhos, e distrahidos pela tenacidade da empreza tinham esquecido as horas. Foram cercados pela maré. Não poderam voltar a tempo para a canoa e tiveram de esperar que o mar se retirasse, assentados em uma das pontas do Tas de Pois. Tal foi o motivo da volta nocturna. Estas voltas são esperadas sempre pela febril inquietação das mães que, uma vez tranquillas, manifestam a alegria por meio da colera, e lacrimosas dissipam o terror a cachações. Por isso os pequenos apressavam-se, mas iam assustados. Apressavam-se, mas de boa vontade se demorariam, era um certo desejo de não chegar nunca. Tinham em perspectiva um beijo complicado de sopapo.
Só um dos meninos nada receiava; era um orphão. Era francez e ia bem contente de não ter naquelle dia nem pae nem mãe. Não tendo ninguem que se interessasse por elle, escapava á bordoada. Os outros dous eram guernezianos e da parochia de Torteval.
Escaladas as rochas, os tres furta-ninhos, chegaram á planura onde estava a casa mal assombrada.
Começaram por ter medo, dever de todo o viandante, sobretudo crianças, aquella hora e naquelle lugar.
Quizeram fugir e quizeram parar afim de contemplar a casa.
Pararam.