Entrar pela janella era o habito dos visitantes.
O clarão appareceu um momento mais vivo, depois apagou-se e não reappareceu mais. A casa tornou-se escura. Então ouviram-se rumores. Esses rumores pareciam vozes. É sempre assim. Quando se vê, não se ouve; quando não se vê, ouve-se.
O mar tem á noite uma taciturnidade particular. O silencio da sombra é ahi mais profundo que em qualquer outra parte. Quando não ha nem vento nem marulho, naquella agitada extensão de aguas, onde de ordinario não se ouvem as aguias voar, ouvir-se-hia voar uma mosca. Aquella paz sepulchral dava um relevo lugubre aos rumores que sahiam da casa.
—Vejamos, disse o francez.
—E deu um passo para a casa.
Os outros dous tinham tal medo que decidiram-se a acompanhal-o. Não ousavam fugir sós. Acabavam de passar um grande montão de lenha que, sem que o saibamos, os animava naquella solidão, quando de uma mouta voou uma coruja. As corujas tem uns vôos tortos, de assustadora obliquidade. Aquella passou de travez pelos rapazes, fixando nelles os olhos claros no meio da treva.
Houve um certo estremecimento no grupo atraz do francez.
O francez clamou contra a coruja.
—Tarde vens, coruja. Já não é tempo. Quero ver. E avançou.
O ranger dos seus sapatos grossos e ferrados não lhes impedia ouvir os rumores da casa que se elevavam e baixavam, com a accentuação calma e a continuidade de um dialogo.