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Já o dissemos. Gilliatt não era estimado na parochia. Antipathia natural. Sobravam motivos. O primeiro acabamos de explica-lo, era a casa em que morava. Depois, a origem delle. Quem era aquella mulher? E este menino? A gente não gosta de enigmas a respeito de estrangeiros. Depois, trajava uma roupa de operario, tendo aliás com que viver, embora não fosse rico. Depois, o jardim, que elle conseguia cultivar e donde colhia batatas apezar dos ventos do equinoxio. Depois, os alfarrabios que elle lia.
Outras razões ainda.
Porque motivo vivia solitario? A casa mal assombrada era uma especie de lazareto; conservavam Gilliatt em quarentena; deste modo era muito simples que o seu isolamento causasse espanto, e o responsabilisassem pela solidão, em que o deixavam.
Nunca ia á igreja. Sahia muitas vezes á noite. Fallava aos feiticeiros. Uma vez viram-n'o sentado sobre a relva com ar espantado. Frequentava o dolmen do Ancresse e as pedras fatidicas que existem espalhadas pelo campo. Havia quasi certeza de terem-n'o visto comprimentar polidamente a Rocha que canta. Comprava todos os passaros, que lhe levavam, e soltava-os. Era civil para com as pessoas das ruas de Saint-Sampson, mas preferia dar uma volta para não passar por lá. Pescava muitas vezes e sempre: apanhava peixe. Trabalhava no jardim aos domingos. Tinha um bug-pipe (especie de samphona) que comprara a uns soldados escossezes, ao passarem por Guernesey, e tocava nella sobre os rochedos, á beira do mar, ao cahir da noite. Gesticulava como um semeador. Que virá a ser uma terra com um homem destes?
Quanto aos livros, que haviam pertencido á mulher finada, esses eram assustadores. Quando o reverendo Jaquemin Herodes, cura de Saint-Sampson, entrou na casa para encommendar a mulher, leu no lombo desses livros os titulos seguintes: Diccionario de Rosier, Candido, por Voltaire; Aviso ao povo acerca da sua saude, por Tissot. Dissera um fidalgo francez, emigrado, retirado em Saint-Sampson que aquelle Tissot devia ser o que carregou a cabeça da princeza à Lamballe.
O reverendo notou n'um dos livros este titulo verdadeiramente extravagante e ameaçador: De Ruibarbaro.
Cumpre observar que, sendo a obra escripta em latim, como indica o titulo, era duvidoso que Gilliatt, que não sabia latim, lesse aquella obra.
Mas são exactamente os livros que a gente não lê, os que mais condemnam. A inquisição de Hespanha julgou esse caso, e pô-lo fora de duvida.
Demais, o livro era o tratado do doutor Tilingius sobre o ruibarbo, publicado na Allemanha em 1679.