—Arnaldo... Arnaldo, estou com medo... accorda! Sr. Arnaldo... accorde!...
Mal se mexeu o desastrado. Ergueu, n’um gesto inconsciente, as mãos immensas, que puzeram temerosas sombras na parede, e murmurou:
—Conversaremos amanhã... temos... muito tempo.
Desanimou Julia de vez, instinctivamente offendida.
Emfim, não ficaria ás escuras, não era pouco; accendeu até duas velas mais, e, de volta á sua cadeira de braços, com a maior intensidade de luz, contemplou espaçadamente aquelle novo Endymion, presa de inquebravel dormir, o ideal do seu romance, o pomo de discordia com o seu velho pai, tão bom, prompto sempre a lhe fazer todas as vontades, o causador da sua vergonha e irremediavel desgraça.
Pois devéras era aquillo?! Que nariz ridiculamente arrebitado, que barbas de piaçava, que cabellos e que tez esverdeada, baça! E a grotesca saliencia dos olhos por baixo das palpebras inchadas? E as sobrancelhas em matagal, unidas como sombria e fatidica linha? Santo Deus, que pés colossaes, mettidos em meias de branquidão negativa!
Que seria della, perdida para todo sempre, depois de tamanho escandalo, travados a sua existencia inteira, o seu futuro, com o desse seductor impossivel?!
E de novo chorou copiosamente quando a madrugada já vinha colorindo de rosicler uns pontos do espaço, annunciada pelo estridulo grito dos gallos matutinos.
Sorria-se todo feliz Gracias na sua beatitude de largo repouso afinal conquistado; mas nem por isto se mostrava menos feio e repulsivo, pelo contrario. Ah! quanto arrependimento, que intenso vexame, no peito de Julia! Que acerbas reflexões! Que horas ainda! Que anhelo, para que aquella noite acabasse e ao mesmo tempo nunca pudesse ter fim, nunca, durasse eternamente.
Afinal, vencida por mortal fadiga e indizivel angustia, pegou tambem no somno, na tal cadeira de balanço.