CIGANINHA
(A AFFONSO CELSO, PRIMOROSO ESCRIPTOR)
I
Chamavam-lhe Ciganinha, e a principio tambem Magriça.
Exasperava-a, porém, este appellido. Quando o ouvia «ó, magriça!» voltava-se rapida, furiosa, com os olhos a chammejar, e torcia a cara toda nuns esgares muito feios de bruxa velha, botando para fóra uma lingua de palmo, fina, comprida, serpentina. Soltava até grossas palavradas.
Com a outra alcunha não se importava. Erguia os hombros num gesto de expressivo pouco caso e concordava resmungando:
—Se sou mesma!
Por lei fatidica dos contrastes, havia recebido na pia baptismal o nome, que nunca devêra confirmar, de Angelica—d’ahi Gêgéca ou Gégéca, como costumava dizer a mãe, abrindo os ee de modo especial e descançado, e accrescentando sempre com languido suspiro de pezar:
—Um diabréte, esta ménina.
Desde bem pequena, mostrára, com effeito, indole muito independente, genio violento, amigo de fazer as suas quatro vontades, audaz, altivo e arrebatado, de par com muitos cahidos e engraçadas momices e caricias com quem lhe cahia no gôto, ou permanentemente ou em horas de caprichoso bom humor.