Uma feita, já bem crescidinha, voltara á casa coberta de sangue vivo, uma grande brecha aberta na cabeça.

—Não é nada, mamãi, affirmava toda exultante, com feição de legitimo triumpho: uma batalha de pedras, bonita como tudo, com os filhos da Narcisa Mofina. Del-lhes que foi um regalo. O Juca anda sempre me chamando para as bibócas, a fazer-se de cebo commigo, pois bem, levou até ao céo da bocca. Eu... contra quatro, hein? Não arredei pé emquanto não os debandei. Só agora é que senti que me tinham tirado mel da cachola... Canalhas!

E ainda se esgrimia exaltada, a pôr em fuga os numerosos adversarios.

Não cabia em si de ufana.

—Quatro, mamãi, quatro contra a filhinha de seu coração!

—Mas, menina, observava com tom plangente e arrastado a pobre da mãe, isto lá são modos de rapariga? Onde vai vance parar? Que désgostos me esperam mais n’esta vida de sópplicios? Não basta o que já tenho soffrido?

E desatava a chorar.

Muito dada a lagrimas essa D. Cula, diminutivo de Clotilde, usual em todo o interior do Brasil; muito choramingadora, a boa da mulher. Tambem, havia sido tão desventurosa na sua existencia penosa, solitaria, predestinada aos abandonos!

Sempre feia, desenxabida, esgaivotada, pallida como cêra, n’um emaciamento desconsolado de penuria constante e aniquiladora, era filha de casal pauperrimo, que a deixára orphã bem cêdo, sem um cobre[1] no fundo de velha bruáca.

Vivera ao Deus dará, muito quietinha, retrahida e medrosa a curtir negra miseria de contorcer estomago e intestinos, e aguentando-se como podia com umas costurazinhas e bordados de crivo, que lhe pagavam uma ninharia.