—Deixe-se d’isso, replicou philosophicamente a Ciganinha correndo já para a porta, Deus tem muito em que cuidar. Quando se lembrar de mim, já a raiva terá passado... A Maria Rebolona, que não se faça de engraçada commigo... Sujo-lhe, num dia de chuva, toda a roupa estendida no gramado... Hei de avisal-a uma vez por todas...

Esse furto do pombo nuélo... Para que insistirmos?... Por acaso, D. Cula não teve sempre bons caldos, quando esteve tão doente? Quasi esticára a canella, coitadinha, sem cirurgião ou curandeiro, que a visse por caridade, nem remedio nenhum, nenhum para tomar!—E melhorsinha, não comera pratazios de arroz bem cozido, em que se poderiam vêr ossadas bastante suspeitas, até de gordas gallinhas?

Chegou a beber seus calicesinhos de vinho do Porto, comprado a 2$ o martello na venda do José Bispo, o que serviu, semanas e semanas, de thema a muita historia gaiata, longos commentarios e malevolas conjecturas.

Pois, senhores, tudo falso e inventado, quanto ao vinho, pelo menos. Querem saber a verdade? Por Deus Nosso Senhor Jesus Christo, que está nos vendo e nos ouvindo.

Disséra um tropeiro para D. Cula:

Vancê, dona, do que precisa é tomar todos os dias uns dous bons dedos de vinho do Porto, da venda... Sem isto, não sára... não póde arribar tão cedo.

—Mãi de misericordia! retrucara a agorentada martyr, que é da cobreira para comprar a tal mézinha?...

—Ha de se arranjar, declarou Gêgéca, que se impressionara com o conselho.

E como costumava a miudo sopesar curiosa o cofresinho esquecido pelo trastalhão do cigano, n’esse dia o levou ás escondidas para fóra de casa e o arrombou no cerrado, sem a menor hesitação.

—Vamos ver, disséra para si, o que nos deixou o sem vergonha do meu pae.