—Esta rapariguinha leva a bréca de repente; acaba muito mal. Pobre da D. Cula, que filha lhe pôz nos quartos o maldito do cigano! Cruzes! Devéras, caipora assim é tambem demais... Talvez, o cujo fosse o diabo em pessoa... Te arrenego, abernuncio! Só mesmo o demonio é que podia ter a coragem de esbordor todos os dias a desgraçada amiga... era a ração... Milagre, que a deixasse com braços e pernas... não lhe tivesse aberto a cova com tanta porretada!...

Pelo que se vê, as surras de outr’ora haviam entrado nas tradições populares. Tambem não poucas mulheres de má vida, as fadistas, nas brigas com os tropeiros e scenas de ciumes, avisavam provocadoras e afoutadas:

—Olhe, siô moço, não sou nenhuma D. Cula. Para cá vem de carrinho. Tire o seu cavallo da chuva, ouviu? Commigo nada de farófa... Depois queixe-se ao bispo!

Tudo isto, tão longe, tão longe d’aqui, na villa de Santa Rita de Cassia, á margem direita do bello rio Paranahyba, na minha pobre e formosa terra natal—Estado de Goyaz!...

Transporta a larga corrente n’uma balsa de duas compridas canôas encambulhadas por pranchões atravessados e um soalho por cima, chega-se a uma praiasinha de areia fina—o porto de onde se empina elevado barranco. Alguns bonitos salgueiros por perto.

E n’aquella balsa viajam, de um lado para outro do rio, homens e cavallos de sella ou bestas de carga, então desarreadas e só com as cangalhas de páos de forquilha assentes em chumaço grosso de macéga secca.

A boiada, muito chifruda, com os cornos compridos e bem abertos, ás vezes elegantes lyras nas graciosas curvas, boiada goyana, forte, grande, passa a nado; e os boiadeiros e camaradas a vão tangendo, na diagonal da travessia, com uma grita immensa, que rebôa pela matta.

Refuga a principio o gado, mas, apertado pela gente a cavallo que montada em pello o toca e estimúla, o pica e com elle se atira dentro d’agua, afinal se decide agoniado e lá vai em denso cordão com cabeça bem levantada, olhos aterrados e bocca offegante a deitar ruidosa respiração. A extremidade opposta do pesado ruminante não mergulha tambem, surde e como que se agita inquieta, presentindo perigos. É que, segundo voz geral, se aquella parte do corpo, em que a Ciganinha tinha bicho carpinteiro, se molha, está irremissivelmente perdido o pobre do animal. Singular destino! Caso digno do estudo dos entendidos e sábios!

De vez em quando, lá se destaca um boi e busca voltar á margem segura e protectora, ou então roda de uma vez, embrulhado pela violenta corrente do Paranahyba.