—Que quer, meu bom amigo? Actua em mim tambem a influencia do nome que me deram. Será Você... serás... o meu Gœthe!
—Mas aquelle era um genio, um ente privilegiado, a gloria de uma grande nação, o orgulho da intelligencia humana; tudo merecia, a admiração dos homens, as homenagens do mundo inteiro, o amor das mulheres, a adoração de todas as idades. Subira passo a passo como sol offuscador em firmamento sem nuvens, tocára ao zenith, cada vez mais rutilante, e ao occaso, a trasmontar, illuminava com deslumbrante fulgôr o seculo em que vivêra. Prostava-se a natureza intellectual ante aquella força creadora, tão grande que parece impossivel excedel-a. Fez, com effeito, vibrar todas as fibras do coração; desvendou-lhe, como o divinal Shakspeare, muitos dos seus segredos; abrangeu as mais arduas questões da sciencia; resolveu por méra intuição abstrusos problemas; revestio todas as formas—Proteo estupendo e sempre admiravel, ninguem o igualou na extensão e profundeza da inspiração e do saber!...
—Serás o meu Gœthe, insistia Bettina bebendo as palavras do seu apaixonado e fitos nelle os quebrados e amorosos olhos; cada qual vive e se expande no circulo em que o destino o fez nascer. Tivesses tido o palco que elle, o genio, pisou, e a tua gloria houvera passado muito além dos limites que conseguiste. Quem põe, assim mesmo, em duvida os teus triumphos, os applausos que te derão a tribuna, o theatro, as lettras, a justiça dos concidadãos? Serás o meu astro vivificador, o meu sol... Felizes das que te viram e te deram o tributo do seu amor em teu zenith. Para mim fôra até demasiado forte o teu brilho de então. Contento-me com os raios desse occaso, já que tanto me falas nelle... Aliás, que sou eu senão simples prolongamento do teu espirito, da tua vida moral? Quem me educou a alma, me infundio o gosto e o gozo da leitura, ávida, insaciavel? Quem me guiou no labyrintho da litteratura, me fez viver a vida dos antigos, me incutio o enthusiasmo das obras primas, o amor do bello, da arte, do honesto, do puro, do sublime? Que sou eu senão uma filha da tua intelligencia, do teu gosto, das tuas inclinações ideaes e sentimentos? E com a felicidade ao alcance da mão hei de deixal-a escapar por preconceitos e convenções que aborreço e a que não se dóbra a minha altivez innata? Que fazer de mim, se antepuzeres os argumentos da fria razão a todos os impulsos da nossa alma? Valerá tão pouco, aos teus proprios olhos, a creatura intellectual que formaste e é obra exclusiva tua, que, em nome de um enlace bem equilibrado segundo leis physicas, meramente materiaes, a atires, sem consciencia nem remordimento, nos braços de qualquer peralvilho ridiculo, nullo, brutal ou effeminado?
—Já vivi demais, objectava Antenor com sensivel anciedade patenteando a lucta que se lhe travára no intimo, e o que sei da existencia me ensinou a desconfiar do que me resta viver... Acostumam-se os passos do homem tanto a subir, quanto a descer, e agora só me toca ir baixando, costas voltadas para o ponto culminante da parabola vital... Tenhamos ambos justa comprehensão das cousas... saibamos resistir a nós mesmos...
E com os olhos a brilharem de emoção, difficilmente refreada:
—Calcule o esforço que me custa este appello. Imagine abandonada estatua em florido jardim a repellir, se lhe fôra possivel, o pendão de rosas que busca engrinaldar-lhe a fria e marmorea fronte... imagine viajante exhausto da cansativa jornada a fugir da fonte fresca, pura, sussurrante, que lhe vai estancar a sêde e restaurar-lhe as perdidas forças... Terei, porém, energia; afastar-me-ei d’aqui, destes lugares que tanto estremeço, bem sabe a causa, deixal-a-hei neste ambiente de perfumes e magicos encantos, de que a minha alma levará sofrega algumas parcellas para suavisação de immensas dores futuras... e depressa virá o esquecimento, o olvido certo e merecido, dar-me razão. Rapidamente a ausencia me envolverá em densas trevas... Experimentemos, Bettina...
—Fôra rematada loucura, indigna da sua reflexão, contrária a tudo quanto lhe ensina o conhecimento que tem do coração humano... Pelo menos, assim se me afigura... Por mim quero julgal-o. São susceptibilidades de exaggerado melindre, de exaltado e meticuloso cavalheirismo, que mais o levantam aos meus olhos... Aliás, para que e como discutir sentimentos?
—Dolosa conselheira é a imaginação... Não se deixe enlevar por fugitivas illusões.
—De que vive o amor, qual o seu perenne alimento, senão a fantasia? Deixe-se de hesitações que afinal acabam por deslocar-me, longe de mais, do meu papel natural. A mim não competia vencer resistencias dessas, sobretudo com o meu genio altivo e independente... Quer Você argumento superior a tudo? É este o impeto que me impulsiona, o meu desejo supremo... e basta!
Proseguindo com voz insinuante: