—Miseraveis! exclamava com indignação repassada de desprezo; corriqueiraram-me o sublime Shakespeare! Babujaram-me de ignobil baba o immenso Dante! Canalhas! Entrego-lhes o Inferno e Purgatorio, já que não ha mais defesa possivel; mas, com mil bombardas e pelas cinzas dos meus avós, o Paraiso é meu. Hei de zelar-lhe a alvinitente pureza, custe o que custar, até á morte. Não consinto que n’elle toquem!...
E olhava para todos com ares de quem acabara de receber a sagrada herança por testamento do immenso Dante, com recommendações expressas acerca d’essa parte da Divina Comedia.
Lêra elle jámais esse Paraiso, por que quebrava tantas lanças, o Purgatorio ou simplesmente o Inferno? Nunca se soube.
Buscando abrigo em refugios extremos do gosto e da originalidade, ainda não conspurcados pelo torpe vulgo, entranhara-se, como um perseguido, pelas litteraturas do Norte e citava com pasmosa profusão os nomes mais arrevesados, apregoando, dos primeiros nos circulos da rua do Ouvidor, Dostoiewsky, Pissensky, Arne Garborg, Ibsen, Bjœnstierne-Bjœrnson, Ostrowsky, Hastzembusch, Ocienxdlœger e outros de igual calibre.
Alto, magro, muito claro, com o olhar meio empanado sobre palpebras empapuçadas, cabellos em continuo desalinho, barba espetada perpendicularmente ao queixo, distinguia-se, mais que tudo, por pés e mãos enormes. Calçava Clark 43 e luvas, letra... não; luvas era superfluidade de que nunca usara. Em compensação, movia essas mãos nuns gestos continuos, ora largos, calmos e generosos, ora freneticos, raivosos, ameaçadores, de quem ia derrear meio mundo com pancada de moer ossos.
Vivia ao Deus dará, sempre em vesperas de estrondosa collocação, já n’alguma das secretarias de Estado, onde distribuiria o santo e a senha, introduzindo reformas estupendas de mais apurado cunho litterario na feitura das peças officiaes, já á frente de uma publicação periodica que havia impreterivelmente de desbancar a Revista dos Dous Mundos—nada menos.
—Vocês verão, annunciava exaltado, convicto, como ponho de pernas para o ar o tal Buloz e toda a sua igrejinha carrança, pedantesca e jesuitica. Será o protesto do mundo pensante contra aquella ridicula camarilha, que pretende avassalar o intellecto universal. Preparem-se para estourar de tanta gargalhada!
Por em quanto, porém, nem emprego de secretaria, nem revista. Passava os dias a pedir emprestadas a amigos e conhecidos umas miseraveis quantias, que considerava favor ir embolsando; hospede dias, semanas ou mezes seguidos, aqui, acolá; excellente rapaz no fundo, divertido, serviçal e meigo, em meio de todas as bravatas e objurgações.
Sempre prompto para a pandega. Lá isso, contassem com elle; era dos fieis, dos inabalaveis. Com a bréca, até em patuscadas ha deveres a cumprir. Demais, a vida foi feita para desobrigar-se com honra e pontualidade dos compromissos tomados; curta e boa—a sua divisa.
E desfiava umas 8 a 10 horas inteirinhas do dia na rua do Ouvidor que, percorria do largo de S. Francisco á rua Primeiro de Março quinze ou vinte vezes, ora ás carreiras como homem atarefadissimo e que não podia perder um minuto, ora parando em cada botequim e n’elle chuchurreando café, licores, cognac, leite, sorvetes, seu absynthosinho não raro, e quantos liquidos, innocentes ou não, todos de bom grado lhe offereciam.