O acampamento dos refugiados em pouco tempo tornou-se intoleravel para muitos: uns tocárão as suas canôas para ir mais longe fazer rancho á parte; outros, em pequeno numero, forão espontaneamente se apresentar aos paraguayos.

Entre estes figurava frei Marianno. O piedoso capuchinho sentia-se fraco e acabrunhado diante de tamanha desgraça, e as suas lagrimas corrião a miudo ao lembrar-se de tudo quanto os indios, a quem chamava de filhos, estarião soffrendo, esparsos pelos montes, ou sem duvida cahidos em poder do inimigo.

Depois de haver penetrado no seu espirito a idéa de se entregar ao invasor e obter d’elle compaixão para todas aquellas victimas—mulheres principalmente e debeis crianças—, não descansou um só instante, até ir, acompanhado do tenente João Faustino do Prado e do alferes João Pacheco de Almeida, se apresentar em Miranda no dia 22 de Fevereiro de 1865.

Havia na villa uma razão que o attrahia com força irresistivel: era a igreja matriz que construira com grande trabalho, empregando n’ella os seus magros vencimentos e tudo quanto conseguia da caridade dos freguezes.

Correr portanto a igreja para dizer missa foi o que fez logo frei Marianno, n’um estado de jubilo difficil de descrever. Quanto tempo havia passado longe d’aquelles altares, arredado de todos os objectos de seus extremos, de sua adoração!

As ruinas que por toda a parte o cercavão, casas derrubadas, a meio incendiadas, ruas atravancadas, por todos os lados signaes da destruição, nada o impressionava, nada lhe detinha os passos.

Elle voava para a sua matriz.

Ahi tambem o esperavão destroços que tomavão o caracter de negro sacrilegio. As torres sem os sinos, os altares despidos dos santos ornatos, o tecto esburacado, o chão coberto de caliça e caibros, as imagens mutiladas, de prompto ferirão os olhos de frei Marianno.

Então todos os projectos de conciliação desapparecerão-lhe da mente, e elle, transfigurado pelo desespero e pela indignação, no meio d’aquelle templo esboroado fulminou com a sua excommunhão a todos os paraguayos.