Reanimado, já outro, escreveu o padre Monte para Goyaz pedindo ser encarregado de uma missão entre os indios bravios da provincia.

A resposta foi prompta, e a villa soube que em breve partiria o seu vigario com destino ás margens do Tocantins a cathequisar os selvaticos e indomaveis Canoeiros.

Alguns sentirão devéras a retirada d’aquelle parocho, severo em seus costumes, sério e affavel, mas, força é confessar, em geral houve indifferentismo.

Não se podia ao certo mostrar o menor aggravo que o padre Monte fizéra, mas umas velhas lembráram que elle nunca fôra muito amigo de procissões, que consentira o enterro de um cigano no cemiterio, não quizéra permittir na casa de um caróla umas festas religiosas e reprehendera severamente o sachristão por haver vendido uns bentinhos de seu louvor.

No dia da partida, pois, quando o padre Monte se despedia de seus freguezes, houve uma só pessoa sinceramente sensibilisada: era elle.

Um mez depois entrava na cidade de Goyaz e, fazendo entrega dos livros a um conhecido seu a quem recommendou procurar dar-lhes direcção para o dono, guardou só comsigo As Missões e os Fins Derradeiros do homem. Mas antes calculára mais ou menos o preço que poderião ter custado e poz no correio uma carta endereçada ao Sr. Estulano da Silva, levando dentro umas notas do Thesouro.


O padre Monte seguio para o Norte no tempo secco, o melhor para viajar e chegou com saude ao Vão do Paraná: depois, sem acompanhamento algum, frechou com resolução para as mattas que os Canoeiros costumam atravessar.

Até o presente, e, já lá vão uns bons pares de annos, não ha noticia do fim que levou: entretanto não se deve desesperar ver ainda voltar o intrepido missionario, trazendo para o gremio da civilização tribus inteiras de indios que sem a sua dedicação e coragem vagarião pelas mattas como féras indomadas, fugindo do contacto d’aquelles que hoje são os seus compatriotas, são filhos da mesma terra, são, como elles, brasileiros.

FIM DO VIGARIO DAS DÔRES